30.4.08

Sobre o imaginário bélico do futebol

Qualquer arena, com seu formato arquitetônico circular, remete nossa memória ao Coliseu. E talvez a única representação equivalente das lutas romanas no mundo contemporâneo seja o futebol. A arena, assim como o futebol, aparece enquanto o lugar inevitável do trágico. Em geral, hoje, não há motivo maior de lágrimas para um sujeito comum do que uma grande derrota de seu clube: é a própria morte, o grande luto.

A violência tem sido um dos temas mais debatidos na imprensa esportiva. De início, esta constatação nos faz imaginar que a violência aumentou nos últimos anos. Isto não é absolutamente exato. Para além da história das glórias no futebol, uma história da violência poderia trazer à superfície acontecimentos pouco presentes no comum. Parece mais certo pensar o contrário, então: o que aumenta cada vez mais é o controle sobre o inesperado do esporte e sobre o que é ou não é politicamente correto - em suma, o imaginário da punição. Isto não diz respeito somente ao futebol, pois qualquer discussão de segurança hoje está ligada ao controle. No entanto, não há subjetividade mais controladada do que a do grande jogador de futebol.

Dia destes, em um programa esportivo na SPORTV, todos os comentaristas foram unânimes em discordar de uma opinião completamente isolada - a de que o jogo de futebol é a encenação de uma guerra. O comentarista que mais ficou contra esta idéia, paradoxalmente, foi o gaúcho. A discussão girava em torno de Valdívia, camisa 10 da equipe do Palmeiras, por suas constantes provocações em campo. Grosso modo, o comentarista isolado defendia que a provocação é uma estratégia possível dentro do jogo, que funciona enquanto armadilha, e que os limites do futebol estão nas regras e só. Isto o fez chegar mais longe, na idéia já mencionada - de que o futebol é a encenação de uma guerra.

Há um esquecimento de todo o imaginário bélico que move o esporte - artilharia, estratégia e tiros os mais diversos: de meta, de canto, etc. A bola é a maior arma e somente com o seu domínio é possível derrotar o outro. O campo tem a forma retangular, mas a arquitetura das arquibancadas é feita em círculo, sem exceção. Afinal, voltamos ao Coliseu.

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Lembro de um jogo entre Palmeiras e São Paulo, no início da década de 90, quando Edmundo - um dos anti-heróis do futebol brasileiro - sozinho, bate boca com todo a equipe do São Paulo, faz faltas mais duras, leva cartão, reclama, de modo a provocar, alguns minutos depois, uma confusão generalizada entre todos os atletas. Nesta ocasião o comentarista diz: "Olha, o Edmundo está sem controle. Qualquer coisa pode acontecer". A confusão vem logo depois. O narrador do jogo, por sua vez, entre lamentoso e entusiasmado (mais entusiasmado do que qualquer coisa) enquanto mais de dez jogadores se atropelavam e se batiam e a torcida inteira vibrava, o narrador então exclama quase sem querer: "Que espetáculo!... horroroso!". É a aparição do sintoma: ao falar qualquer coisa, estamos falando sobretudo de nós.

Todo mundo vibra um pouco com o noticiário esportivo quando o assunto é uma grande briga entre os jogadores - todo mundo vibra em silêncio, é claro. Sabendo disso, a própria estrutura do noticiário do dia se forma de modo a aumentar o ibope com a notícia espetacular. É a primeira a ser anunciada, a última a ser exibida. Forma-se então uma contradição pouco sutil entre a opinião dos jornalistas e a opção editorial.

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