12.5.08

Carta de Mário a Portinari

"(...) aliás estava matutando de escrever pra você, pra uma safadeza. Você já me conhece e sabe que sou homem bem arranjadinho. Pois imaginei desde o princípio do Departamento de fazer aqui nele, um gabinete da Diretoria artisticamente arranjado, que pudesse bem represntar a força de São Paulo e seus artistas. A coisa no princípio foi fácil. Mandei fazer um sofá encaixado na parede, com lugar pra livros por cima e pra bibelôs. A mha mesa também foi desenhada por mim e mais dois pequenos armários pra cantos de paede. Tudo se embuia clara nacional, de desenhos verdadeiramente maravilhos. Além dos livros, em cima do sofá-armário, pus um riquíssimo relógio moderno, dado de presente ao Departamento, uma cuia esculpida de Santarém, e uma peneira bordada. Em cima dos armários pequenos pus uma lindíssima galera em metal cromado, presente do dr. Fábio Prado. No chão um tapete vermelho escuro de cor bem funda, e outro dum marrom neutro por baixo da minha mesa de trabalho. Nas janelas cortinas de linho creme sem moldura azul e marrom claro, combinando com tapete e estofado do sofá. E por baixo do vidro da minha mesa de trabalho botei três gravuras antigas, um Debret, uma litografia colorida francesa do séc. passado e um mapa da capital da Bahia, do séc. XVII. E inda fiz a loucura de comprar com meu dinheiro, um tinteiro em metal cromado, por não aceitar o horrendo que a Prefeitura me mandou. Bom estava com a sala assim linda, mas com uma falta grave, sem quadros. Cavei com o Gomide o milhor quadro dele, que é realmente muito bom, coisa muito recente, que coloquei por cima do sofá. Mas ficou a grande parede principal, que está inteiramente vazia, e que exijo decorar com um quadro definitivo de pintor cá de nossa terra. Logo pra principiair pensei em você mas desisti. Portinari, prêmio norte-americano deve estar muito caro pra meu bolso (está claro que não tenho verba pra essas coisas) e já não posso pedir presente para ele, é sem-vergonhice. Procurei, procurei, mas não achei outro pra essa parede e pro ambiente que estou criando. Resolvi perder a vergonha. A parede está completamente vazia, e por baixo tem apenas três tamboretes que se enfaixam uns nos outros formando sofá sem encosto. Diga pra cá, companheiro: Você não estará com alguma vontadinha de me fazer presente de algum quadro batuta, não pra mim, mas pro Departamento? Palavra de Mário que o Departamento merece, está fazendo coisas lindas que lhe hei de contar quando for aí em abril; dentre as quais já está em estudos um pavilhão moderníssimo, pra exposições de pintura e escultura, todo em vidro, mármore e madeiras preciosos, que vai ser cedido grátis aos artistas. Vai ser colocado num jardim bem central, de fácil acesso, estamos pensando na praça da República. Além disso o Departamento é visitado por quanto artista e intelectual importante passa por aqui, até professores de universidade norte-americana já me procuraram pra ver o que a gente está fazendo. Não posso, positivamente não posso ficar sem um Portinari pra mostrar. O pedido fica aqui. Bom, si você estiver muito gangente e não quiser dar (juro que não zango, heim!) pelo menos mande me dizer por que preço você me venderia (pra mim, pessoalmente) ou a Mulher Sentada, que você fez tirando a figura do Café, ou o quadro daqueles três carregadores de sacos de café, vestidos de branco, que também gosto muito. Comprarei um deles, pra mim, e mandarei um ofício ao Prefeito pedindo pra botar o quadro lá, como fiz com as minhas gravuras preciosas. Assim, com a permissão em meu poder, si algum dia sair de diretor do Departamento, posso carregar o quadro comigo, pois não é justo eu dar de presente pra Prefeitura as preciosidades que ajunto."
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Mário de Andrade,
São Paulo, 14 de março de 1936.

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