Quarta-feira, Julho 2

Três aforismos na VAN

Ando lendo alguns escritores que praticaram o aforismo, gênero curto. Hoje de manhã saí de casa com um livro de Oscar Wilde e outro de Vauvenargues, um francês do século XVIII, ambos para ler no ônibus. Sou um leitor compulsivo de ônibus. Leio Foucault no ônibus e não quero nem saber. Dane-se se a retina deslocar, como dizem. Gosto de ler em ônibus e vou continuar lendo em ônibus enquanto não tirar a carteira de motorista.

Acontece que hoje não tinha ônibus em Florianópolis.

Greve.

Então o prefeito Dário Berger, que nunca leu em ônibus, largou várias VANs na cidade. Pensei em voltar para casa e dormir, mas como eu era obrigado a ir para a UFSC, havia um compromisso, então fui.

Na minha VAN tinha quatro ou cinco tias que não paravam de falar. Estavam chateadas. A fila não andava. Nestas horas é fácil perceber como o ser humano, de modo geral, é meio chato mesmo. Eu desisti de ler Vauvenargues, mas não estava tão apreensivo com a situação. Estava até me divertindo. Só precisava passar o tempo. Então comecei a exercitar aforismos em plena VAN.

Primeiro foi quando todo mundo começou a fazer e receber ligações através do aparelho celular. Eu disse meu primeiro: Com a greve de ônibus quem tem lucro é a Tim. Ninguém achou muita graça. Um senhor que estava falando no celular até me olhou meio de lado. Acho que o povo perde todo o senso de humor quando os ônibus entram em greve.

Mas eu insisti. Era um excelente teste, afinal. Fiquei só esperando uma nova situação. E como a fila era grande e a VAN quase não andava, então todos começaram a desistir de chegar até o Centro e foram ficando pelo caminho - primeiro uma senhora, depois um garoto e ainda uma das tias. Eu disse então: Isto está parecendo prova de resistência do Big Brother. Aí as tias já deram uma risadinha. E uma delas comentou que estava com medo porque na última greve, ano passado, os motoristas de ônibus jogaram tomate nas VANs que passavam. E desta vez então fui rápido e fulminei: Não se preocupe, minha senhora, é que da outra vez tinha uma parceria entre o sindicato dos motoristas e o direto do campo. Putz, com este a galera riu. Deve ter sido o tempo da piada. E fiquei me achando engraçado. E já estava preparando muitos outros quando a VAN chegou no Centro. Tivemos que desembarcar.

Na outra VAN, em direção à UFSC, o clima não estava amistoso e então eu fiquei quieto. Fiquei até com vontade de perguntar para o motorista se a VAN era saída sul ou saída norte, mas preferi mesmo ficar quieto. Então abri o livro do Vauvenargues. Voltei a ler. E o aforismo estava lá: Os tolos não compreendem as pessoas de espírito.

2 comentários:

Fabricio Boppré disse...

Ótimo relato! Mas deixa eu dizer, também me incomodavam com essa história do deslocamento de retina, quando eu era criança e sempre lia no carro da família. Dos bancos da frente vinha sempre "pára de ler, Fabricio, desloca retina, deixa pra ler quando chegarmos na tua vó". Até que um dia li naquela seção de perguntas e respostas da SuperInteressante um especialista dizendo que isso é mito. Não acontece. Mentira. Tinha figurinha (infográfico, como diz o jargão) explicando e tudo. Guardei aquela revista um tempão e sempre mostrava para todo mundo que vinha incomodar com essa bobagem. Portanto, Victor, tua retina vai ficar no lugar, pode ler a vontade aí nos ônibus em Fpolis. E nos metrôs aqui na Europa!

Victor da Rosa disse...

ah, muito bom saber, rssss,

bem, pelo menos nunca conheci ninguém que tenha deslocado a retina, rss

abraço, meu caro.