27.10.08

"A cor da alma"

É difícil encontrar um retrato de Machado de Assis que não tenha esta luz estourada em seu rosto como se dissimulasse a paternidade mulata. Sabe-se dos problemas que Machado encontrou - embora o reconhecimento literário tenha aparecido ainda em boa parte da vida - para se afirmar enquanto intelectual em uma sociedade afundada no preconceito escravocrata. Em meio a pequenas rodas aristocráticas cariocas, fico imaginando quantas vezes Machado não deve ter sido obrigado a ouvir a velha pergunta cega que moveu a identidade de nosso país e ainda move - de que gente você vem? Estas fotografias me lembram, enfim, aquele velho enunciado nacional tão vivo entre nós: era um preto, mas com alma branca. O excesso de luz nos retratos de Machado sempre me pareceu o sintoma mais sutil de um país que, como diz Silviano Santiago nesta entrevista, tende a não enxergar o real, insiste em não olhar para si.

2 comentários:

Rodrigo Rosa disse...

Eu nunca me havia dado conta de que, sim, há um estouro de luz sobre a face de Machado. Obrigado pela luz.
Um grande abraço
(Talvez sejamos parentes, tb sou "da Rosa")

Victor da Rosa disse...

Olá, Rodrigo,
grato pela passagem.
Sobre o nome, há muitas Rosas no mundo, você não acha?
Um abraço,
V.