12.11.08

A Bienal - ainda

De modo geral, as críticas que se fazem à Bienal de SP são piores do que a própria Bienal. Aqui, um belo exemplo do que estou dizendo: mais um texto persecutório de Affonso Romano de Sant'Anna, o único crítico brasileiro que ainda não entendeu Duchamp.

Por outro lado, penso que o texto de Aracy Amaral, aqui, é uma exceção saudável e, dentre outras coisas, desfaz com facilidade e sem querer o texto de Affonso: o problema da Bienal não está na arte contemporânea e sim no que se tornou a instituição Bienal. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Quase o óbvio, afinal.

4 comentários:

Ruy Vasconcelos disse...

olá, v.

vou mais além.

diria que alguns dos textos que versam sobre os textos que versam sobre a bienal são ainda piores, porque não se pode aferir deles um argumento pessoal longe de citações ou empréstimos.

e, no entanto, parece no mínimo ingênuo pensar que a transformação pela qual passou a 'instituição bienal' nada tem a ver com a arte contemporânea. seria, como que isolar a instituição bienal (q. só existe em função de ser uma mostra de arte contemporânea) numa perigosa redoma. se a maior mostra de arte contemporânea do brasil nada tem a ver com arte contemporânea, pode-se perguntar: com o quê terá a ver?

a arte contemporânea é um cadinho de estilos, tendências, um tanto indistintas e, por vezes, até antitéticas. porém o maior problema dela é ter de se apoiar num discurso para além de si. fora de si, de sua materialidade. hoje, o artista vale mais pelo que fala de sua obra do q. pela obra em si. infelizmente.

qto. a affonso romano, não tenho m muitas simpatias por suas concepções sobre arte. mas, ao menos, um mérito lhe deve ser creditado: ele destoa desse discurso - este sim canônico - q. se repete de departamento a outro nas faculdades de humanidade deste país. esse q. a pretexto de de abalar cânones e desconstruir discursos tem se tornado, isso sim, numa espécie de senha hegemônica. tão canônica quanto já foi, um dia, o discurso q. deslocou para o lado (o estruturalismo, o gramscianismo, o marxismo cultural à la historiogtafia inglesa, etc.)

bom, ao menos temos algo de mais idiossincrático para conversar qdo. se lê sant'anna. é algo menos pasteurizado do que, digamos, a norma instaurada por barthes, derrida e cia. [rsss] q. é tomada com a naturalidade de um discurso "padrão", hoje em dia. um discurso não passível de ser estranhado.

abs.

Victor da Rosa disse...

Olá, Ruy,

primeiro, me defendo assim: não escrevo um texto sobre os textos da Bienal, mas somente faço dois links de outros textos que li e me posiciono mais ou menos diante deles, porque não é um assunto que me vale discutir, até porque não tenho conhecimento para tanto, mas considero interessante acompanhar. Então não me reconheço no teu primeiro parágrafo. De qualquer modo, não vejo problema algum nas citações. Citamos mesmo sem querer. Você deve ter citado um bocado de gente neste comentário, por exemplo.

Mas vamos ao que interessa.

O que eu disse - na verdade, quem disse foi Aracy Amaral, pois se trata afinal de uma citação - é que a instituição Bienal está em crise. Não é por acaso que um artista respeitável como Cildo Meireles tem as posturas que tem em relação a esta instituição. Não é possível diagnosticar o século XX através de uma instituição em crise, como quer Affonso. Ora, é fácil simplificar a discussão e dizer que na Documenta de Kassel, por exemplo, a 'arte contemporânea' está muito saudável.

É evidente que 'uma coisa tem a ver com a outra', de algum modo, mas é evidente também que isto não é necessário. Em outras palavras, a Bienal é uma opção, um recorte, e reflete portanto suas opções políticas e curatorias. Isto me parece algo absolutamente natural. O que Affonso faz é somente uma artimanha que qualquer um identifica: usar uma Bienal fragilizada para atacar o que ele chama de 'arte contemporânea' e gozar na sua neurose anti-duchampiana. Como você mesmo diz - e parece haver certa contradição no teu parágrafo, já que primeiro você afirma que a 'arte contemporânea' é um 'caldinho de estilos' e depois você realiza um diagnóstico dA are contemporânea, como fosse uma grande coisa só - é justamente isso: a coisa é indistinta.

Com o que tem a ver a Bienal, então? Política da mais perversa, talvez?

Um abraço,
Victor.

Ruy Vasconcelos disse...

olá, again,

por favor, relendo a coisa posso entender sua preocupação. mas ñ me referia à sua breve nota, e sim a tantas outras análises q. encontrei por aí. ,e referia a certa tendência de se deter sobre o problema depois de vários e vários subtextos anteriores. o q. é mto. cômodo.

qto. à diversidade da arte contemporânea: ñ há dúvida. o q. a caracteriza é justamente esse ecletismo. mas também essa falta de conclusões. essa necessidade de negar (às vezes, um tanto gratuita e sem força de elocução). esse medo de afirmar. certa escatologia e niilismo ñ dissimulados. ou ainda a tal impossibilidade da poesia pós-auschwitz. no fim, algo de de pouco solar em si, e que quer se reafirmar sombriamente por vezes de um modo forçado. então, o q. tentei enfatizar foi apenas um aspecto mais geral disso tudo: inflação de discurso, dispersão. vivemos numa época de inflação de discurso. em q. o artista fala menos "com sua obra" do que "sobre sua obra" - o que, muito paradoxalmente, reforça um instância egóica da qual supostamente ele pretenderia se afastar (falo em linhas gerais).

de resto, meu caro, v. está no rumo certo: foi, sem dúvida, a velha politicagem - também tão amiga dos discursos especiosos (e longos) - quem minou a bienal. mas isso não vem de hoje. e, então, por que os próprios artistas deixaram a coisa chegar a esse estado? lembremos, a bienal já foi um evento q. já teve uma tremenda força (de afirmação, e inclusive fora do brasil). hoje é um zero à esquerda, se comparada com a de kassel, p. ex., e como v. menciona.

mas, mesmo aqui, parece q. se pode nuançar. há sim essa politicagem, é verdade. mas ela sempre houve. sempre haverá. o q. espanta é q. o momento da arte no brasil seja tão mesquinho no sentido de fazer frente à politcagem. de não transcendê-la. de não conseguir driblá-la. ou de ser incapaz de permitir q. boas sugestões venham (inclusive de muitos outros países) a ser expostas, propostas por aqui.

depor a culpa apenas em curadorias e conchavos de bastidores, no entanto, parece um pouco aquela passividade de quem precisa de um opressor para chamar de seu.

agora, calculo q. isso tudo deva ser ninharia diante da perspectiva de um avaí 'série a' e de um figueira na segundona.

abs.

Victor da Rosa disse...

Entendo, Ruy.

E acho que, sim - as duas coisas: inflação retórica (que expressão curiosa!) e falta de precisão política nos gestos.

Mas aí acho que a discussão já escapa um pouco da Bienal de SP. Ou é uma discussão que pode ser feita independente da Bienal de SP. E acho que é uma discussão que até se 'atrapalha' se tomamos a Bienal como motivo.

Nem precisamos ir à Kassel, com as devidas proporções: dizem que Bienal de Porto Alegre - do Mercosul - está bem, por exemplo.

Por isso acho que faz sentido o que diz a Aracy: se for pra discutir Bienal de SP, há que se discutir o problema da instituição.

Agora, você vê: o Avaí está batendo na porta faz 5 anos, pelo menos, e o Figueirense fazendo campanhas razoáveis durante o mesmo tempo. A coisa se revira todo justo no mesmo ano! Isso mostra toda a força trágica do futebol.

Outro abraço,
V.