31.1.09

No bar do Gonzaga

Gonzaga quis dar uma melhorada no visual do boteco e chamou um pintor - Pelé, o vizinho da rua de baixo, um preto muito silencioso - pra ocupar toda a parede da entrada. Pelé tinha talento nas artes e sugeriu pintar uma Iemanjá saindo das águas.

E quanto tu me cobras, preto?

O material, vinte e cinco e mais uma cachacinha durante a confusão e já fecho negócio.

Uma turma que estava no boteco fez platéia em volta. Pelé foi pintando e bebendo, mais bebendo do que pintando. Começou pelo mar, estava bem, mas já confundiu Iemanjá com sereia e fez uma cauda de peixe nela. Depois, ao invés de ter belos seios, a Iemanjá do Pelé era meio bombada. Então a turma começou a pegar no pé do Pelé. A rede parecia uma teia de aranha. O peixe que deu um pulinho da água aparecia esboçando um sorriso pra fotografia. Era a turma enchendo o saco. Pelé foi ficando contrariado.

Quando já estava finalizando, com a Iemanjá no centro, um pescador no canto jogando a rede, uns peixinhos no outro canto e uma ilha com um coqueiro meio grande, então faltou a tinta certa e Pelé pintou os cocos todos de preto. A turma, que estava meio de lado, voltou inteira pra ver a finalização de Pelé.

Que isso, Pelé?, nunca vi um coco preto!

Pelé se irritou de verdade e, com a mão que não segurava o pincel, quebrou o silêncio:

Nunca visse?, então vê estes dois aqui ó!

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