19.1.09

Nota de leitura: A galinha degolada

Tenho uma impressão sobre a direção teatral de Jefferson Bittencourt que, talvez por não acompanhar certas discussões do teatro, eu nunca soube atribuir um valor - a impressão de que o diretor trata seus atores como se fossem marionetes. Por isso, ao ver suas direções, sempre me recordo que Jefferson possui, antes, uma formação musical. Há certa inexpressividade nas atuações, algo rigorosamente marcado - e curiosamente há também o rótulo do expressionismo. Com esta peça, A galinha degolada, esta impressão retornou com toda a força.

O que mais me encanta na linguagem do Persona são as soluções visuais - que sempre funcionam muito bem dentro da dramaturgia. O desfecho d'A galinha degolada, por exemplo, parece investir toda a força dramatúrgica e até mesmo certa sutileza em uma finalização puramente visual. O que mais me incomoda, por outro lado, é a insistência em certo maneirismo, um projeto de clima. E acho que há um problema nesta peça que parece não haver nas anteriores: um amontoado de atores no palco.

QUANDO: 15, 16, 17, 18, 22, 23, 24 e 25/01
ONDE: Teatro da Ubro - Escadaria da Rua Pedro Soares, 15 – Fundos do Colégio Coração de Jesus
QUANTO: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)

3 comentários:

Jefferson disse...

Caro Vitor...tudo bem? Em primeiro lugar gostaria de agradecer o fato de você ter escrito algo sobre o espetáculo e de ter colocado o serviço, auxiliando na divulgação do mesmo.Gostaria de esclarecer dois pontos: a linguagem do ator marionete é peça central nesse trabalho e está relacionada tanto com a concepção da obra (na construção das ações) quanto na relação com o destino dos personagens (não é à toa que queremos deixar claro que tudo já está definido )reforçando o caráter trágico da história. Sugiro que você leia a dissertaçãpo de mestrado da Gláucia Grígolo: Paradoxo do ator marionete. Tenho me empenhado nessa busca também coletando informações e inspirações no universo do diretor teatral polonês Tadeuz Kantor (que também 'tratava' os atores como marionetes)...lembre-se , nunca no sentido pejorativo mas no sentido de concepção, idéia e construção. Este é o foco desse espetáculo.Os atores estão empenhados em desenvolvar este papel...ninguém deve se sobressair enquanto performance...há a necessidade do equilíbrio...da força da imagem , do conjunto... Quanto ao maneirismo citado por você, não tenho receio algum dele pois, como disse acertadamente, G.K. Chesterton : "o grande mal da modernidade é não se permitir mais ser sentimental" ...sou avesso à pseudo-ironia moderna (aos montes nos ícones do cinema francês) que me parecem somente reforçar o caráter de superioridade de quem os pratica.....por isso sou do discurso da compaixão, da grandiloquência, da transcendência (esta última ...sei que causa arrepios de aversão em muitos)....bem...por enquanto é isso....podemos continuar conversando...um grande abraço pra você!!

Pedro Bennaton disse...

Uau! Vítor e Jefferson.
Fico muito feliz que começamos o ano com crítica e réplica sobre o que acontece no teatro da cidade.
Não julgo a peça, não pude assitir ainda, nem os dois textos, mas as duas iniciativas são louváveis de reconhecimento. Poderíamos iniciar um período de análise, crítica e debate sobre o teatro da ilha como ainda não vimos. Um período mais construtivo, um período pós-aline.
Queria esclarecer que Kantor, também uma influência no ERRO Grupo, construía com seus atores algo mais relacionado ao falecimento do corpo, um ator com o corpo morto. O teatro de Kantor é o Teatro da Morte. Este conceito é diferente da supermarionete de Craig que se relaciona ao ator com corpo de boneco, uma forma animada.
De qualquer maneira fiquei muito interessado em assistir o Galinha Degolada.
Vítor, parabéns pelo blog, leio com frequência, gosto de seu humor urbano, peculiar e de sua "autocricricrítica". Não comentei outros textos, pois não sou muito de interagir na web. Contudo, nesse 2009 serei diferente e vou encher o teu saco. Abraço e até.
Pedro

Jefferson disse...

opa ..maravilha..que bom então...concordo com o Pedro..sempre sou a favor de conversas abertas sobre as obras que construímos...e Pedro...estás certo com relação ao Kantor...me refiro mais ao fato de que sou muito interessado na idéia dos atores 'se transformando' em bonecos (com estaticidade, pouco movimento ou movimentos mecânicos)mais no quesito plástico propriamente dito...costumamos dizer que na Galinha trabalhamos a idéia de um teatro de formas 'desanimadas' eheheh!! abração!!