14.2.09

A escrita e o desespero

Beckett era um homem desesperado. Enrique Vila-Matas escreve, em seu Paris não tem fim, que encontrar Beckett nas ruas de Paris, sempre vestido de preto, era se encontrar com o próprio desespero. Dava medo. E é curioso que Beckett tenha inventado - ele que dizia da impossibilidade de inventar qualquer coisa - muito do que se chama de contemporâneo. Na verdade, Beckett nunca inventou nada. Era só um escritor desesperado. E grande parte da narrativa contemporânea, parece, não tem desespero algum. Há poucas exceções, César Aira é uma delas. Aira é outro desesperado. Isso talvez não seja de todo o mal. Mas eu não entendo, por outro lado, como é possível fazer qualquer coisa sem desespero. Aira não consegue parar de escrever. Pessoas que escrevem todos os dias geralmente são desesperadas. Há muitos motivos para o desespero. Acho que o humor, seja em Beckett ou em Aira, também é um modo de desespero. Porque chega um momento em que você precisa rir. É uma decisão difícil, mas você precisa rir.

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