3.2.09

No dia em que deixei de ser filho único

Fui filho único até os 16 anos. Tive um quarto só pra mim durante 16 anos. Até que um dia meu pai me chamou no canto e me deu a notícia mais fatídica da minha adolescência:

Teu irmão agora vai morar com a gente. Sim, no teu quarto, onde mais poderia ser? Sim, senhor, a partir de amanhã.

Não apenas deixei de ser filho único, como passei também a ser filho mais novo. Meu irmão era cinco anos mais velho. Dormiria na parte de baixo do beliche. Estava tudo no esquema. O beliche já estava até comprado. Meu mundo caiu. Fui chorar na calçada da rua de cima. Era um moço, não queria fazer vergonha na frente dos outros. Saí correndo porta afora, sentei na calçada e comecei a chorar. Pensei em todos os privilégios que perderia. Teria que dividir sobremesa, presente de natal. Fui abrindo o bocão aos poucos.

Acontece que a dona da casa da frente ouviu meu escândalo e veio cheia de benevolências. Era a mais fofoqueira da rua. Queria me ouvir. Eu disse que estava de boa, enxuguei as lágrimas, não era nada. Ela insistiu. Eu reafirmei que estava de boa. Então ela começou a chutar:

Já sei, é problema com drogas.

Não, senhora, me deixe.

Então é coisa com namorada.

Por favor, minha senhora, nã-

Tens certeza, querido?

Ela ainda me disse que eu deveria abrir o coração:

Tenho duas filhas e agora elas querem levar os namorados pra dormir em casa. É difícil, eu sei, mas a gente tem que entender que os tempos são outros. Converso muito com elas, digo até pra usar camisinha. Não dá pra fingir que nossas filhas não transam, sabe? Por exemplo, a mais nova, que o Armando protege, fez uma tatuagem. O Armando não quer nem ouvir falar de namorado.

Quem é o Armando, minha senhora?

É o pai, quem mais poderia ser?

Eu enxugava as lágrimas na camiseta e a mulher falando. De minha parte, fui enxugando e levantando. Quando percebeu que eu não diria nada, já estava no meio da rua, mesmo assim ela me mandou voltar pra casa, tomar um banho e esfriar a cabeça. Espairecer. Tudo iria ficar bem. Não tinha mais volta.

2 comentários:

Christiano Scheiner disse...

esse é um fato fatídico!!
muito bem escrito - sucinto e letal.
;)

Maiza disse...

ah-ah-ah, adorei muito!