10.2.09

Nota de leitura: Linha de passe


É difícil decidir se Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, é ou não um filme sobre futebol – e isto, de algum modo, parece revelar muito sobre nossas leituras. Pode-se dizer, ainda: é um filme sobre a paternidade – e se lembramos de Central do Brasil, filme anterior de Salles, a afirmativa parece ganhar novos contornos. Desde o título, o futebol é certamente um dos grandes temas, é motivo plástico, sonoro, é força narrativa e é também metáfora. De fato, também a impossibilidade de decidir sobre o eixo que move as narrativas de Linha de passe, toda sua instabilidade e a instabilidade que é também a de seus personagens, pode se constituir mesmo como um de seus traços mais conseqüentes.

Deve haver muitas maneiras de aproximar Linha de passe do futebol – e este, embora evidente, ainda me parece um exercício a se fazer. Primeiro, se o filme procede com narrativas que se cruzam – e não se trata de um triângulo amoroso, mas de um quadrado mágico – o jogo de futebol será o maior responsável pela costura. As primeiras cenas do filme são testemunhas admiráveis do modo como o futebol se torna presente entre os personagens: depois de apresentar os quatro irmãos em atividades distintas – e, plasticamente, através da velocidade e do movimento de corpo, são criadas finas relações entre todas as atividades e o futebol, o centro da narrativa – todos são unidos por um pequeno encontro futebolístico no terreno da própria casa, já no final do dia, na primeira cena do filme em que aparecem juntos. Os quatro irmãos não são filhos do mesmo pai, mas todos, em diferentes níveis, jogam futebol.

Um comentário:

Pedro Bennaton disse...

sobre o jogo.
arriscar-se a jogar.
a linha tênue entre estar impedido ou livre para a jogada.
nada aproxima tão rapidamente um grupo de pessoas quanto uma atmosfera de risco.
"o correto é sair na primeira, mas todos saem na segunda pois a primeira é muito curta"