6.2.09

Nota de leitura: Wisnik

Li este ensaio de Wisnik faz alguns meses e a minha idéia inicial era escrever uma resenha caprichada. Fui adiando a resenha, lendo outras coisas e, agora, tanto tempo depois, só me restaram estas notas que ficaram rolando em um documento de Word na área de trabalho. Como de vez em quando faço faxina na minha área de trabalho, encontrei novamente as notas e não sabia o que fazer com elas. Quando não sei o que fazer com alguma coisa, publico no blog. São notas simples, coisa de leitura, mas não são de todo mal.

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No primeiro capítulo, o crítico procura refazer – mas já pensando no modo como o futebol brasileiro responde a estas questões – a passagem do jogo pré-moderno. Esta parte do livro é interessante, sobretudo porque mostra como a invenção do futebol moderno está ligada a uma quantificação e a uma finalidade do jogo. O exemplo muito divertido que sintetiza esta parte diz respeito a uma tribo que jogava futebol para empatar. Ou seja, o nascimento do futebol moderno é também o nascimento da vitória.

No segundo capítulo, Wisnik parte de um ensaio de Machado de Assis para discutir os princípios de prazer e de realidade no futebol nacional. É quando o crítico entra no futebol brasileiro.

José Miguel Wisnik entende o futebol como um campo sério de problematização política e poética. O autor não hesita, no entanto, em saltar de Claude Lévi-Strauss para Ronaldinho Gaúcho.

O ponto de partida metodológico está anunciado no título: só é possível pensar o futebol sob o nome da indecisão – não remédio ou veneno, mas remédio e veneno. Durante toda a reflexão, Wisnik procura desfazer dicotomias mais redutoras: o futebol não pode ser reduzido ao seu aspecto mercadológico e nem ser pensado ingenuamente enquanto utopia do pobre (agora não lembro se ele usa esta expressão). O crítico investe suas análises na procura de certa singularidade do jogo - o que diferencia o futebol dos outros esportes, dentre outros traços: seu caráter mais errático, que possibilita grandes margens para interpretações – até suas relações com a história, especialmente a brasileira, em que o futebol aparece para além do bem e do mal.

O trecho mais curioso do livro está em uma nota de rodapé, mas não diz respeito ao futebol, e sim a ideologias críticas: é quando Wisnik pede desculpas para Antônio Candido por usar um título assim tão inspirado no pós-estruturalismo francês. Ou seja, diz que está com Derrida apenas em partes, apenas no título.

Nem defesa da espontaneidade e tampouco a recusa fácil de um objeto menor.

Há uma ontologia do futebol brasileiro? Wisnik acredita que sim e aponta a imagem da elipse – que pode ser pensada com o drible, por exemplo – como síntese desta singularidade. As análises que decorrem daí parecem ser as grandes contribuições de Wisnik neste livro.

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