20.4.09

Poética do pedinte

Uma das narrativas mais legais de ouvir na cidade é a narrativa dos pedintes de ônibus, a meu ver. De início, somos posicionados diante de uma narrativa em que o valor de verdade está suspenso; podemos somente suspeitar se a narrativa é falsa ou verdadeira. O que está em jogo, portanto - e todos sabem disso, mesmo que não saibam - é a capacidade que o narrador tem de envolver os outros emocionalmente, pegar no coração: é uma capacidade puramente ficcional, retórica. A referência do real, então, está fora de cena. Depois, os narradores de ônibus têm pouquíssimo tempo pra conseguir esta façanha, ou seja: já narram dentro da lógica pós-moderna do fragmentário. E pior, contam sempre com a antipatia de todos os viajantes, cada um querendo pensar nas suas coisas, conversar com o amigo, ler um livro (mais raro), de modo que os narradores de ônibus iniciam o jogo sempre atrás, perdendo. A questão é que há narradores brilhantes e outros medíocres. Se as histórias são sempre muito parecidas umas com as outras, não é possível dizer o mesmo sobre a capacidade de narrar. Em outras palavras, ninguém está interessado se a mãe está doente ou se os filhos estão com fome - duas temáticas centrais das narrativas de ônibus - mas o modo como esta narrativa será encenada. Por exemplo, estes dias eu li um bilhete de um pedinte com sintaxe perfeita e até com crase; isso não se faz nunca. Fiquei anos pra aprender a usar crase corretamente, tem jornalista do Globo que ainda erra, e um pedinte vai me colocar crase no negócio. Há pedintes medíocres e brilhantes. Todos já puderam acompanhar pedintes sairem do ônibus emputecidos, sem ganhar uma moeda furada, e outros com o chapéu cheio de notas de um real, coisa de dar inveja a qualquer estudante de Letras. Enfim, há muitas coisas importantes para um aspirante a narrador de ônibus aprender, mas o traço fundamental para o sucesso de cada narrativa é sempre poético, ficcional: é ritmo, dicção, figurino, tudo isso.

4 comentários:

André disse...

Cara, esse texto é brilhante. Tens que desenvolve-lo e publica-lo no DC. Poxa, eis um novo gênero textual.

Maiza disse...

pq vc não se arrisca, victah? (no ônibus)

fernanda disse...

'stou 100 palavras. e legal o texto.

Christiano Scheiner disse...

uau, este quero ler de novo!
muito bom, gosto do tema e fico impressionado com a sua construção "crônica": realidade transposta ao universo da estética literária, que tu dominas muito bem.
;)
\o/