23.4.09

O resto é lixo

Faz três ou quatro dias que ele não sai de casa. Parece que resolveu aproveitar o frio e prolongar o feriado, mas não se sabe. O quarto agora é grande: tudo é dentro. Faz a barba todos os dias pra ninguém; não penteia os cabelos; passou a cuidar dos dentes com devoção. Lavar as roupas tornou-se um exercício desnecessário, diferente das louças. Na soleira da janela de seu banheiro, em um fileira muito organizada, há uma coleção de tampas de pasta de dente e fios dentais usados e enrolados sempre do mesmo modo. A indicação que dá para a empregada é que não toque em nada e então ela não toca, embora não entenda, mas não toca. Tudo fica limpo e a soleira da janela - ele, ao menos, pensa assim - parece um pequeno espetáculo. O resto é lixo. Por outros motivos, a empregada também não toca nas inúmeras moedas que se espalham ao redor do computador. Quando tudo aquilo irá ao lixo não se sabe, pois é lixo. Também chegará um momento em que precisará descer para comprar pão, patê e bananas, só o necessário.

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