5.4.09

A salvação das tardes de domingo: Neto

Acho que o futebol brasileiro anda tão mais ou menos que o meu maior estímulo pra ligar a televisão no domingo tem sido um comentarista, o Neto. Primeiro, pra chegar a um entendimento comum: o Neto é doido, doido varrido. Um comentarista de futebol que, ao vivo, durante uma partida de futebol, faz piada do Michael Jackson dizendo que ele pega criancinha só pode ser doido. Depois, não vou dizer que o Neto não entende nada de futebol, até porque alguém que fez os gols que ele fez deve entender muito mais do que eu, no mínimo, mas seus comentários são de uma aleatoriedade divertida, divertidíssima. Por exemplo, o Neto cisma com uns jogadores e passa a amá-los; ou, se a figura tiver azar, odiá-los. Dois de seus amores: a biba do São Paulo, Richarlyson - que o Neto pronuncia com um retroflexo interiorano que é maravilha! - e o Felipe, goleiro do Corinthians. Um grande ódio: Luxemburgo, acho. Dia destes, contra o Palmeiras, o Felipe tomou um frango e o Neto fez de tudo pra salvá-lo: Não podemos culpar o Felipe, que é um goleiraço, pois goleiro é assim, tá lá pra isso mesmo [ou seja, pra tomar frango]. E o Rich às vezes entra aos quarentão do segundo tempo, com o São Paulo ganhando de três, o jogo solto, e o Neto manda a sua: Excelente substituição, excelente! E soma-se esta capacidade de dizer qualquer coisa com sua completa falta de tempo pra comunicação: Neto está sempre perdido na hora de entrar em cena. Dá pra perceber quando o narrador dá aquele tempo para a entrada do comentarista e o Neto chega cinco segundos depois, e já se explicando: Mas também, o que eu vou dizer deste lance, o cara é um perna de pau, não tenho mais nada pra dizer! É por estas e outras que, segundo o conselho do meu pai, quando os jogos de domingo estão todos ruins - coisa frequente nestes últimos meses - eu coloco é na BAND. Lá o jogo sempre é bom.

Alguns gols inesquecíveis do Neto - dois de cobranças de falta e dois de bicicleta, no modo mais difícil de acertá-la: aqui, aqui, aqui e aqui.

2 comentários:

jean mafra em minúsculas disse...

legal foi o comentário dele sobre o ronaldo no cqc.

Victor da Rosa disse...

Comentário de Pedro Bennaton censurado pelo blogspot:



Muito importante esse texto, tocou no âmago.

Faz revigorar a memória de todos nós sobre esse que foi um dos maiores jogadores que o Brasil já teve.

Como sou de 78 e sempre sofri pelo Timão, o Neto foi, sem dúvida, um dos meus heróis durante os meus 11 até os 15 anos.

Contudo, gostaria de complementar que o melhor desse jogador não eram seus gols, sua maestria no passe, sua rebeldia, sua garra e devoção pelo Corinthians, mas a maneira como ele comemorava seus gols. O Neto foi um dos poucos, na década de 90, que assinalou suas comemorações com uma mesma sequência de ações dramáticas:

após fazer o gol, ele saia correndo estufando o peito, batia com as mãos no coração e, quando chegava perto do final do campo, se jogava de joelhos no gramado deslizando até o fim dando um soco no ar.

Eu delirava.

Não importava se o gramado estivesse molhado, o que fazia com ele deslizasse muito mais, chegando até em algumas vezes atravessar o final do gramado, ou seco, ele considerava tão importante quanto o gol sua sequência de ações dramáticas para a comemoração com a torcida e seus companheiros de time.

Por poucas vezes presenciei esse ritual e nessas ocasiões o Pacaembu estava lotado. Recordo como se fosse ontem que toda a torcida esperava, inclusive eu, o deslizamento do corpo ajoelhado e a mão cerrada do jogador atingir o ápice do soco no ar para efetivamente delirar, celebrar completamente o gol e tirar os olhos do campo.

Ele não se importava com a euforia em ter marcado o gol ou se o gramado machucava os joelhos. Neto cumpria seu ritual com o comprometimento da Fiel torcida.

Quando não comemorava o gol dessa maneira, era um ato simbólico que registrava a ausência da sequência dramática substituída por um ato que significava algum descontentamento dele com alguma situação do jogo, ou uma euforia incontrolável que o fazia comemorar no alambrado mais perto da torcida.

Em uma próxima ocasião posso relatar sobre outro lado fascinante desse jogador, a qualidade e a precisão de suas cusparadas. Ainda não sei qual qualidade me influenciou mais, seus cuspes, sua garra ou sua sequência de comemoração.

Sobre o lado comentarista do Neto: acho que ele tenta encontrar seu espaço no meio da gordura do do Valle, mas fica obrigado a jogar pelas pontas esmagado. Quando a bola sobra pra ele, ela está tão maltratada que ele não acredita e apela. O mais importante no Neto como comentarista é seu sotaque.

Acho que as tardes de domingo seriam muito melhores com a dobradinha Silvio Luiz e Neto, aí sim ia dar jogo.