5.5.09

O CIC e etc [resposta a um questionário]

1) Deve haver em algum lugar, mas eu não conheço política cultural tão inexpressiva e corrompida como a nossa, tanto de SC quanto de Florianópolis. Basta olhar para a administração cultural em Joinville, não muito longe, e as diferenças já ficam evidentes. É chuva no molhado, pra usar uma expressão bem adequada, dizer que o CIC está falido. O MASC é o único Museu sem orçamento que conheço. Não precisa tratar nem de opções políticas, de atividades interessantes, de boas exposições, nada disso. Trata-se de um Museu que simplesmente não tem orçamento. O que isto significa? Significa, por exemplo, que se um artista faz uma exposição no MASC, o próprio artista deve comprar a etiqueta caso queira identificar a sua obra. E isto não é nenhuma metáfora, é literal. Em um texto como Ilha, deserto, arquipélago, aqui, escrevi sobre estas condições, propondo um contraponto com o Museu Victor Meirelles, inclusive, que faz um trabalho excelente há alguns anos. O que falar da FCC? É uma instituição que não merece muito respeito.

2) Depois, há uma questão um pouco mais difícil, mas nem tanto - pois falar mal do MASC tornou-se fácil, comum - que é a discussão sobre a identidade local. Não desvalorizo a cultura local por ela mesma, seria um essencialismo. Basicamente, eu diria que grande parte da arte produzida em Florianópolis ainda é regida por um padrão político do século XIX - o padrão dos tipos. O mané, o boi-de-mamão, a ponte e tudo o mais que identifica uma representação fixa deve interessar muito para as nossas leis de incentivo, ou seja: o mesmo padrão que constrói a literatura brasileira do século XIX, com os tipos mulatos e indianistas, por exemplo. Não é nada aleatório que a Secretaria de Turismo e a de Cultura funcionem juntas em SC. É o grande sintoma, a meu ver. O turismo é um agravante. Não permite a cidade olhar pra si. A história da arte catarinense pode ser medida pelo alto grau de entrega a estes modelos. Hoje, ainda, a arte local reproduz estes padrões sem saber ou, talvez, sabendo muito bem. Exemplos são desnecessários. E é claro que o Estado incorpora e todo mundo acaba feliz. Ingenuidade não há.

3) Depois disso - sempre vem depois, é engraçado - há os artistas. Dizer que desvalorizo a produção artística de Florianópolis é desconhecimento, mas normal. Em cinco anos de atuação no Caderno de Cultura do DC e também no Idéias do AN, praticamente desde que foram abertos, devo ter escrito mais de trinta textos sobre artistas com produção a partir da cidade, e ainda continuo, embora com regularidade menor, por outros interesses. A maioria dos textos estão disponíveis na internet, alguns com link no blog. Escrevi sobre inúmeros artistas mais novos, alguns absolutamente desconhecidos, mas também sobre artistas mais velhos, como é o caso do escritor Silveira de Souza, que tem uma literatura que prezo muito, e até mesmo de Martinho de Haro, que é um ícone da cultura local.

6 comentários:

Anônimo disse...

alguém uma vez falou (e vários estúpidos repetiram) que cada povo tem o político que merece. pensei antes de escrever (com o risco de me colocar como mais uma estúpuida), mas parece que a adaptação também pode caber aqui: os artistas locais têm a secretaria de cultura que merecem. pode-se dizer que as coisas estão como estão por mero descaso político, o que não deixa de ser verdade, mas pode-se pensar também que as coisas estão tão ruins porque os principais interessados, o povo que faz "arte", simplesmente dança conforme a música antiquada, cretina e sem graça da política cultural tacanha daqui. e tacanhice gera tacanhice.
quanto ao cic, coitado, tenho é pena, mas não só pelos artistas, pelo prédio mesmo pela falta de arte e pela falta de vida.

Anônimo disse...

o que é tacanhice?

Anônimo disse...

também fiquei curiosa. de acordo com o houaiss:
n substantivo feminino
m.q. tacanharia

tacanharia
n substantivo feminino
1 característica ou condição de tacanho; tacanhez, tacanheza, tacanhice
1.1 pobreza de espírito
1.2 apego excessivo ao dinheiro, às riquezas; avareza
1.3 velhacaria, astúcia


acho que a opção número 1 é a que mais tem a ver. bom, pelo menos tenho certeza que não se trata de astúcia.

Anônimo disse...

o cic é um museu no sentido figurado, no que o sentido figurado de museu tem de pior.

Lucian disse...

Esse questionário é imaginário ou tem origem?

Bem, acho que que o discurso contra o turismo da cultura já está engrossando. É questão de tempo para cabeças velhas sairem de cena e as coisas melhorarem um pouquinho. Mas ao mesmo tempo acho que não dá pra pedir muito. Florianópolis é a cidade mais esquizofrência que já conheci, é cidadela provinciana e metrópole cosmopolita ao mesmo tempo. Querem tudo e mais um pouco dela.

Victor da Rosa disse...

Lucian, o questionário é ficcional, mas tem origem em um comentário feito em post anterior.

Gostaria de te ouvir falando mais sobre a possível mudança, talvez, etc, porque eu, confesso, já não tenho tanta esperança.

Um abraço,