27.5.09

Samba de uma nota só [carta a uma professora de pós-graduação]

Cara professora,
ontem, depois de alguns meses, no meu escaninho, finalmente encontrei a monografia que escrevi como conclusão de seu curso do semestre passado. Este momento é especial porque, em tempos tão surdos, é quando temos a oportunidade de escutar pelo menos um eco das coisas que a gente lança assim, no vazio. Faço uma breve digressão sobre isso, sim?
Nós, alunos, nestes casos, passamos o semestre inteiro ouvindo um curso, lendo as referências que o professor sugere, debatendo em sala de aula, etc. etc., a senhora sabe, muitas vezes já pensando na monografia que vamos produzir quando o curso chegar ao fim. Escrever uma monografia, nesta situação, é difícil mas estimulante, pois de certo modo é uma resposta a um debate, o aluno lança leituras a partir de questões já discutidas, corre riscos e então espera um bom nível de interlocução, principalmente porque está tratando de questões que são do universo comum do professor. Eu diria que receber a monografia toda rabiscada, assim, amassada, com as folhas fazendo dobrinhas, com uma longa carta no final, geralmente uma carta escrita à mão, no calor da leitura, sabe, na minha opinião, repito, este é o grande momento na trajetória de um aluno de pós-graduação.
Pois bem, eu dizia que ontem, depois de alguns meses, peguei minha monografia de volta. Ela estava toda branquinha e com um breve recado - chamarei apenas de recado - no final: "Está bem. Mas, para desenvolver o tema proposto era necessário ler também: AGAMBEN, A linguagem e a morte, e LACAN, Escritos (sobre o espelho como formador das funções do eu) e BAPTISTA, A formação do ome (Campinas). Conceito A". Confesso que até procurei outros comentários no verso, folheei toda a monografia outra vez, mas era tudo.
Gostaria de dizer que, dos três livros que a senhora sugere, eu já li dois. Se não estão citados nas referências é porque optei por fazer uma leitura mais perto do texto literário, citando apenas o que considerei mais essencial. Sobre a discussão do espelho, de fato, eu poderia citar um mundo; sobre Machado de Assis, outro. A senhora poderia dizer: leia as obras completas do Borges, e daria no mesmo. Ou seja, a senhora opta por comentar o que eu não citei e ignora tudo que está citado. Afinal, embora não seja uma monografia tão longa, sempre é possível comentar uma coisa ou outra de 20 páginas de análise, até porque optei por escrever sobre um objeto difícil, que é tema de suas pesquisas e segundo um foco que, até onde entendo, também é de seu interesse. Sim, a senhora não comenta sobre uma linha do meu texto.
Gostaria de dizer também que já sabia que o ensaio estava "BEM", que ganharia conceito A - pra que servem os conceitos? - e que seria possível desenvolvê-lo de muitas maneiras, sim, de modo que a única coisa que realmente ficou de nossa interlocução foi um "MAS".
Aliás, professora, não é demais dizer ainda que recebi tal retorno no meio do processo de escrita da minha dissertação, então a senhora pode imaginar meu ânimo para continuar.
Atenciosamente,
Victor da Rosa.

9 comentários:

Anônimo disse...

publicar o nome da dita, nem pensar, né?
olha victor, é raro professor que lê trabalho de aluno. muito raro, raríssimo. nas pós-graduações é coisa em extinção. eu mesmo defendi minha dissertação e tenho certeza que minha orientadora não leio com o respeito que merecia, mas a banca até que foi gentil. em geral nossos melhores interlocutores são amigos com temas afins, namorados(as) interessados(as), ou até mesmo estranhos. pensa uma banca comprometida, pq senão é capaz que tua banca não leia tua dissertação e fique lá, 30 minutos falando de coisas que não escreveste, falando sobre si, sobre seu trabalho. é triste. falar sobre o que não foi, sobre o que não é, sobre o que se deixou de produzir, sobre uma espécie de falta e deixar de lado a positividade do que foi prodizido é apenas sinal de que a santa apenas passou os olhos na bibliografia, mas isso já estava óbvio.
enviaste a carta?

Anônimo disse...

victor, sua carta foi muito "BEM" (conceito A), MAS aquela chantagenzinha emocional no final foi desnecessária. a mulher pode ser cretina, mas ela não tem culpa da tua dificuldade com a dissertação.
cada coisa no seu lugar...

Ruy Vasconcelos disse...

muito boa carta!

agora, acho q. para os padrões de pós-graduação atuais, a fulana até que escreveu um "volumoso" comentário! é um pouquinho diferente de meu orientador de momento, que, quando se entrega um trabalho, ele corrige até eventuais deslizes de português e faz sugestões de estilo - apesar de ser um... sociólogo por formação. mas, convenhamos, é diferente. trata-se de um livre-docente aposentado. que dá aulas porque quer, gosta e não recebe um centavo a mais por isso. e não se encontra muita gente assim nos dias de hoje.

de resto, é o fim da picada que alguns autores sejam "atados" ou "reduzidos" a certos teóricos. e que se deva ler sempre à lupa desses teóricos. é claro q. são importantes. mas detém o monopólio? a chave-mágica da leitura? e isso existe?

quanto ao poema sobre futebol, claro, nada do conteúdo refere-se a você [quer dizer, nenhuma ironia], além da dedicatória. e pelo gosto comum das quatro linhas.

ou seriam três?

hoje, aliás, feliz com a vitória do barça! uma vitória do futebol!

André Cechinel disse...

Não é a falta de vontade que a impede de fazer os comentários, Victor; é sim a incompetência e o modismo que tanto afeta o CCE. Esse maldito provincianismo estúpido... Não saber quem é essa idiota me anima muito, pois consigo pensar em três ou quatro pessoas. E esse é o retrato da nossa pós. "Necessário" é sim reeducar os professores responsáveis pela nossa educação. Ah se o Prates pudesse falar disso...

Anônimo disse...

victor: diga o nome da dita cuja. coragem.
o que adianta essa reclamação aqui no blog? faça um barulho no departamento. tome posição como alguém que tem um trabalho respeitável na cidade. faça com que essa professora te ouça e seja conhecida por outros professores. esse gritinho aqui, é covarde, fraco, desnecessário. está na hora, já passou da hora, de reivindicares o seu lugar e o seu espaço. comece pela ufsc. se sentirás melhor, acredite. chega dessa conversa fiada. coragem, coragem, coragem. ainda falta revelar essa virtude em ti.

Sua outra Professora do CCE disse...

Do jeito que você escreve, eu não faria comentário algum.

Anônimo disse...

Todo um longo post só pra dizer que tirou A na monografia.
Quanta petulância.

Anônimo disse...

um post inteiro para constatar a presumida vaidade do amigo. quanta petulância!

Anônimo disse...

vais continuar tirando A, pois tu não se indispõe com ninguém, não enfrenta ninguém e não reivindica o seu verdadeiro espaço na universidade. é a comodidade a serviço da vaidade. além do mais, se a professora não sabe avaliar, então esse A não significa nadica de nada.