20.6.09

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A tua voz, assim, tão longe, ainda chega como metal, mas não sei. Falar sobre nossa situação não deixa de ser um desejo de dominá-la, você sabe. Daqui em diante passarei a escrever algumas cartas pra você. Chamaremos assim, soa falso. É necessário ver a paisagem de um ponto de vista mais extremo – pra cima ou pra baixo, pouco importa – e já faz horas que estou neste mesmo lugar, você vê? Há muitas coisas que percebemos quando fechamos os olhos. Darei um exemplo, não se ofenda. Depois que passei a pagar aluguel, você sabe, não tenho mais dinheiro pra nada. Dia destes, já era fim do mês, fiquei sem shampoo. Não precisava sair de casa, a princípio, e então não fazia tanta falta, quis economizar. Não se trata de um item, digamos, essencial para a sobrevivência. Com o tempo fui percebendo que os cabelos, quando ficam realmente sujos, vão soltando alguma propriedade que torna possível moldá-los, algo parecido com o gel, mas muito melhor, pois apenas com a sujeira eles continuam moles ou – por que não dizer? – naturais. Olhava com cuidado no espelho a cada dia, examinando possíveis mudanças e experimentando composições. Eu sempre considerei meus cabelos inferiores aos de meus amigos, você sabe, principalmente por ser um cabelo difícil de moldar. Depois disso, mesmo com shampoo em casa, passei a deixar meus cabelos sujos durante vários dias. Fazia a barba pra compensar, ficava com o rosto absolutamente branco, limpo. A esta hora você já entende onde quero chegar. Talvez já tenha percebido há horas. Você sempre foi mais rápida do que eu.

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