11.6.09

Arte e patologia

Há muitas maneiras de expulsar uma platéia do cinema, do teatro, há maneiras e maneiras de provocar um leitor a fechar o livro. Eu tendo a pensar em uma imagem patológica mesmo, com todas as conotações e todos os erros possíveis que esta conotação pode suscitar: ou o artista está doente ou a platéia está. Durante muito tempo me senti doente por não conseguir terminar um livro de Lobo Antunes, simplesmente por não conseguir. Lobo Antunes era uma saúde que eu não tinha. Quando Artaud escreve cartas a seu médico, do interior de uma prisão, o que está em jogo é um processo de saúde, a meu ver - Artaud, quando reivindica uma escova de dentes, escreve pra explicitar sua extrema lucidez. Várias vezes parei de ler Artaud na metade. De fato, trata-se da fina cisão que separa o estado crítico do estado clínico, segundo uma bela definição de Deleuze.

Digo isso porque não consegui assistir a sequer um minuto do curta Com as próprias mãos, ontem, no FAM. Ainda tentei colocar a blusa sobre a cabeça e continuar na sala, pois era apenas o segundo curta da lista, mas também não conseguia escutar. Enquanto esperava no hall, ainda pude ver as pessoas sairem em fila, feito água mesmo. O filme começa com cenas de tortura pura e acho que continua um bom tempo nisso. Cenas de tortura, a princípio, não são o problema. Fiz questão de permanecer na frente da televisão durante as piores cenas de tortura que já assisti no cinema, em Lady Vingança. O que acho complicado é que o curta faz isso sem nenhum afeto, nenhuma construção dramática, nada, apenas a tortura levada ao grau zero. Provavelmente depois o filme irá mostrar o que leva a garota a arrancar o olho do rapaz, mas aí já é tarde, a meu ver. Não se trata simplesmente de um problema de montagem, mas de um modo de conceber o discurso da tortura mesmo. A atriz, muito delicada, estava sentada exatamente na minha frente.

Um comentário:

Anônimo disse...

pra quê isso, né?