1.6.09

Uma coisa de cada vez [carta a uma amiga]

Eu só te escrevo pra falar do Obina, é uma vergonha.
Quando você vai escrever teu poema sobre o Obina, hein? O Obina é muito esquisito, Lígia. Diz o Juca Kfouri que o Obina agora só voa de TAM porque se voar de GOL perde o vôo.
Aliás, sabia que o Juca publicou meu poema sobre o Riquelme no blog dele? Foi tão engraçado. As pessoas todas me acusando de plágio, porque o poema é bem parecido com o poema do Cabral. Outros dizendo que o Riquelme não joga nada. Torcedores são fanáticos, esta é a coisa mais chata do futebol. Veja, se eu fosse um fanático, jamais poderia admitir que a torcida do Flamengo é a mais bonita do mundo. E isto tiraria toda minha possibilidade de ter alguma emoção com aquilo. É uma besteira. Você gostou disso?
Vou lhe dizer, minha vida está um pouco doida. Vida doida na definição de um mané não é nada, mas.... O Ronald diz que eu tenho que sair urgentemente de Florianópolis, mas confesso que tenho um pouco de preguiça. Florianópolis é tudo perto, é cachorro atravessando na faixa, etc. Estou morando sozinho, acho que te disse. Saí da casa dos meus pais faz uns meses. Agora estou no processo de escrita da dissertação. Minha vida mudou muito. Antes eu tinha dinheiro, agora não tenho mais. Antes eu tinha um micro-computador, agora tenho um laptop. Antes eu não lavava roupa, sabe? Acho que isso mudou minha escrita, sério. Não sabia que era tão diferente assim. Meus dois times cairam pra segunda divisão, você sabe. Aliás, o Ruy fez um poema sobre futebol e dedicou pra mim. É um poema de fracasso. Ele diz que não é ironia, mas eu não acredito, óbvio. Está bonito o poema. É meio narrativo. Já te mando.
Não posso mandar nenhum projeto pra ganhar bolsa federal por conta do CNPq. Sou bolsista da fome. Mentira, nem reclamo. Quero é amizade com o CNPq.
Estou escrevendo uma prosa, O sono escrito. É sobre um homem que tem sono, mas não há enredo nenhum. Até porque não faria sentido. Posso te mandar umas partes? Dia destes sairam alguns poemas meus em uma antologia, mas eu canso de escrever poemas, ainda mais pra sair em antologias. Acho que não irei escrevê-los mais qualquer dia, mas isso não tem muita importância. Eu sinto que os poemas me tiram do mundo e eu sou ausente o suficiente já. A prosa me recoloca. Será que isto faz sentido? Eu gosto destes pensamentozinhos assim sobre o que é a escrita na vida da pessoa. O Cabral dizia que não gostava de música porque a música o fazia dormir. Por isso só ouvia o flamenco.
Deu vontade de ouvir flamenco agora.
Vi que você estará em um evento logo mais. Acho que não será tão divertido como o Simpoesia do ano passado, mas você poderá rever algumas pessoas. Aliás, por que você não manda estes teus poemas pra revistas? Não vejo tantos poemas teus em revistas. Se bem que há cada vez menos revistas relevantes e dispostas por aí, mas poderia ser uma boa.
Você está bem? A vida no Rio está boa? Sabe, às vezes eu penso em morar no Rio. Não estudar, só viver. Talvez trabalhar um pouco. Será que há empregos divertidos no Rio? Vou ver alguma coisa em São Januário. Eu queria mesmo era ter uma herança, mas acho que nem a casa dos meus pais eu vou ganhar. Também não vou ficar reclamando de dinheiro pra você. Você já passou desta fase, não? Ser amigo de estudantes e poetas tem suas vantagens, um certo frescor, mas tem que ter paciência às vezes.
Bem, todo carinho,
e um grande beijo em você,
Victor.

5 comentários:

Seu terapeuta disse...

Lindo isso, Victor.
Porque é que nas nossas sessões você não me conta essas coisas?
Esperava isso de você lá. De peito aberto.

Anônimo disse...

15 cara! 15!!!

Anônimo disse...

uê,tirou a moderação? que susto!

Anônimo disse...

Tomamos!!!
Ele abandonou o barco!
É tudo nosso!
Lembram?
Ele é daquelas crianças que quando está perdendo o jogo pega a bola e vai embora.
Essa é uma carta de despedida.
Nós somos essa amiga.
Os anônimos venceram.

Anônimo disse...

lindo, lindo, lindo. a coisa aqui está crescendo, estou gostando muito.
assinado: ANôNIMO 69