23.7.09

O bagulho é louco, truta

A primeira reação diante de uma invasão de pixadores, seja lá de quem for a reação, parece ser sempre a mesma: isto não é arte, como se 1) alguém pudesse determinar com tanta autoridade o que é a arte e como se 2) a idéia de arte continuasse fazendo tanta diferença. A arte, de fato, não é muito mais do que uma idéia. Sendo uma idéia, não há nenhuma essência que a constitui. No máximo, há uma tradição. Trata-se de uma idéia melhor do que as outras, talvez? Quem pode dizer? Como costuma dizer um amigo, bem, pelo menos é uma idéia que não matou tanta gente.

Depois, com a categorização de que a pixação não é arte, alguns argumentos (alguns adjetivos, na verdade) se repetem de modo simétrico mesmo: é vandalismo, barbárie, agressão, é feio, baixo, sujo, provavelmente jogando junto no lixo toda a obra de Duchamp, Oiticica, Benjamin, citando só os mais aceitos.



Dia destes outro amigo - de fato, um artista que eu admiro muito - veio dizer que arte é um processo de civilização. Sugeri uma das teses de Benjamin: Não há documento de cultura que não seja, ao mesmo tempo, documento de barbárie. Não dá pra esquecer, também, a performance de Oiticica levando seus amigos da favela para invadir o Salão em que foi selecionado. Inevitável lembrar, enfim, Duchamp escrevendo que a Monalisa é meio traveca, no fundo - Elle a chaud au cul, ou seja, em bom português: ela tem o cú quente [os mais pudicos traduzem por "rabo"] De resto, a definição de vandalismo não deixa de ser ambígua: destruição dos monumentos.

Ontem encontrei um fragmento de Pixo, aqui, documentário sobre a pixação em SP. Depois encontrei uma matéria do Fantástico, aqui, que se interessou pelo assunto depois da última Bienal. Depois soube que Kripta, pixador que aparece no documentário e na matéria do Fantástico, e que se define como um ex-pixador - posição, aliás, no mínimo, muito curiosa, pois o ex permite o aparecimento de Kripta fora da ilegalidade, mesmo mantendo o pixador no nome (permite, a rigor, que Kripta possa dar entrevista para a Globo) - Kripta recentemente participou de uma exposição na Fondation Cartier de arte contemporânea, aqui e aqui, em Paris.

(Uma curiosidade: na matéria do Fantástico, a galera desce a lenha nos pixadores; depois da exposição na Fondation Cartier, através da coluna de Renata Simões, pelo G1, a matéria passa a ser bem mais respeitosa)

O assunto, de primeira, por mover tanta discussão, acaba interessando a qualquer pessoa interessada em arte. É inegável a existência de um punctum, a meu ver. Basta passar os olhos por dois minutos destas imagens. Os três garotos escalando o prédio até o décimo andar, no começo do Pixo, é uma performance convincente, no mínimo. A velocidade com que invadiram o prêdio da Bienal, no ano passado, é digna de quem tem a experiência da cidade. A elegência com que outro garoto invade uma sala de exposição da USP, pixa o trabalho de uma aluna - que chora enlouquecidamente, chamando o mano de filho da puta inúmeras vezes - e é expulso quieto, sem nenhum alarde, também não deixa de ser paradoxal.

Depois - e aqui eu posso correr o risco de ser parcial sem tanto conhecimento de causa e sem material mesmo - quer me parecer que o discurso dos pixadores é muito mais coerente e consistente do que a série de conceitos precários que o cercam. Kripta, em seu depoimento no filme, tem a noção exata do que é gesto e anarquismo quando diferencia grafite e pixação, por exemplo: pixação é ilegal mesmo e a essência tá nisso. Se fosse autorizado, ninguém tava fazendo. O bagulho é proibido. Pixobomb diz, ainda: a pixação carrega uma máscara. E um terceiro: a cidade fica um caderno de caligrafia.

José Campos de Oliveira, funcionário da USP, por outro lado, diz algo assim, diante da passagem de diversos pixadores pela Universidade: cadê as cores que nos alegram o dia-a-dia? - talvez sugerindo que a história da arte é, de fato, a história da felicidade. Liliane, especialista em arte de rua, segundo a Rede Globo, também diz: arte de verdade não tem a ver com invasão de patrimônio alheio, isso é vandalismo. A agressividade é o ponto negativo nesta manifestação. Falta pedir pra moça: a senhorita poderia começar nos dizendo o que é arte de verdade, então.

Depois do impacto que Kripta causou em Paris, talvez a moça tenha mudado de opinião, aliás. Então sugiro que a desconfiança seja geral, também, até porque a pixação é pixação porque acontece na rua. Não pode viver sem o risco, sem verticalidade. Se é arte ou não, pouco importa. Pra mim, a única questão que importa é que o bagulho é louco.

13 comentários:

Anônimo disse...

achei seu texto muito bom, victor. gosto do que fazem os pixadores, gosto desse tipo de transgressão, acho viva, legítima, diferente dessas transgressões de laboratórios que vemos no meio acadêmico.
penso que esse sim, seria um repost digno a toda aquela discussão sobre o erro e o arquipélago. é isso aí!
quanto ao cu ou rabo da monalisa, não acho que traduzir como rabo seja por pudicice - nada a ver, aliás. em português a expressão "rabo quente" é muito usada para dizer que uma pessoa é "safada", ou, que gosta de dar o cú.

leo disse...

É Cripta, com C, meu amigo.

rony disse...

Os conceitos de arte são muito subjetivos e elitistas. A definição, às vezes arbitrária, costuma levar mais em conta quem é o artista do que a sua obra efetivamente. Então não tenho dúvida de que podemos sim chamar a pixação de arte. Talvez desrespeitosa, anarquista, transgressora, vazia ou apenas uma forma simplista de mudar o próprio status quo do artista, colocando-o em destaque, um contraponto às suas carências, seu anonimato, enfim, ao desprezo que a sociedade tem por ele. Seria algo próximo do “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”. O curioso é que se trata de uma arte que provoca vítimas. Fatais no caso do artista, e patrimoniais, no caso dos locais escolhidos como “tela”.

No entanto, a pixação pode, por sua vez, ser definida como uma arte de mau gosto. Esse seria um direito inalienável de cada expectador. Eu seguiria essa linha, na minha opinião, ela pode ser importante em determinados aspectos, mas é feia “pá porra” e está há anos luz da expressão artística dos nomes que você citou como referência.
Pixação é arte. Uma arte barulhenta, que grita: “vejam, eu existo”.


Abs

Anônimo disse...

obrigada rony, vc deu forma ao meu pensamento.

Flávia disse...

Victor,

ótimo texto. Acho que o mínimo que as pessoas não entenderam é que existe uma apropriação da propriedade alheia já praticada, p. ex., por Hélio Oiticica. E veja que desse ponto de vista os pixadores são bem mais radicais que o vanguardista, pq encontramos em alguns de seus documentos declarações de que tal ou qual manifestação não poderia ser feita pq não tinha sido liberado o local.
Também concordo com vc, não importa se é arte ou não, o que importa é que se trata de uma manifestação política justamente porque atende a alguns requisitos que a tão chamda arte não consegue atender, a pixação está na rua e exposta. Abs

Anônimo disse...

Victor,

chama a atenção a fala do funcionário da USP. Se a arte nos toca como algo nos termos de um pensamento da felicidade, toda vez que ouvimos "isso não é arte" dirigido às imagens que se estampam nos prédios, muros, etc, ouvimos em segundo tom - como ladainha semelhante ao basso continuo de uma orquestra diletante barroca - um desejo retranqueiro de salvaguardar a felicidade de alguns em nome da infelicidade de muitos. Está aí, talvez, uma das imagens dialéticas que o "todo documento de cultura é ao mesmo tempo documento de barbárie" comporta. Ah, sem esquecer uma modulação desse mesmo segundo tom que se expoe quando se diz que a pixação transforma a cidade em um caderno de caligrafia. Bom... se a pixação é caderno de caligrafia, no mínimo se diz que os pixadores são crianças aprendendo a escrever. Não me parece exato dizer isso. Que a pixação transforma a cidade em caderno, texto - não mais livro, frise-se, o que me parece salutar - é já um pensamento de felicidade, mas não de criança que aprende a escrever. É sim já a escrita de quem pode não mais escrever como outrora. (Não estou considerando o lado espetacular que se tem agregado ao uso "artístico" da pixação de autor, digo, aquela pixação feita por EX-pixadores. Pixador, dizendo-se EX-pixador, já não tem mais fogo no cu.)

Anônimo disse...

Pobre Duchamp.

Anônimo disse...

piXação é crime, é vandalismo, é invasão de propriedade, é baderna, é banditismo. é como quebrar paredes de outros lugares com marteladas. esse texto é demagogia, assim como foi demagogo quem defendeu o depredamento da galeria arquipélago. texto de quem pensa que entende de arte e fica viajando sem conhecimento de causa, sem leitura e sem cultura. quem aplaude essa coisa não passa de um Bando de bobôs metidos a artistas. Cadeia nos piXadores, cadeia nos depredadores. viva a ordem e a arte. as duas coisas podem caminhas juntas sim!

joão disse...

gosto do aspecto caligráfico da pixação, que a aproxima da escrita japonesa ou árabe, sendo feita com caracteres romanos, e esse hibridismo é uma violência dos sentidos. tipografia vulgar, traço expressionista, parece que existe uma busca formal fodida, não só no traço, mas do espaço em que se insere. e os estudantes de artes escrevem no word com times new roman. a pixação do tipo maio de 68 existe em todo lugar, será que esse estilo caligráfico é específico do Brasil?

joão disse...

não né

Victor da Rosa disse...

olá, joão:
não entendo muito do assunto, mas:
pelo menos a pixação, segundo algumas fontes, é um fenômeno que nasce no brasil.
a relação com a caligrafia é forte, principalmente o modo como a caligrafia chega até o ocidente: puro traço. a escrita do pixo é uma escrita difícil de ler, muitas vezes ilegível mesmo. e o gesto está inteiro.
há algo que acho especialmente interessante: o corpo nunca está confortável quando escreve.

PS. grato pelos comentários. com algumas exceções, estão muito bons.

Anônimo disse...

qual o comentário não tá bom? o meu? q diz q isso é vandalismo? é como depredar galerias de arte, só isso. argumente o contrário. o problema é tu (e outros) não tem nenhuma propriedade para zelar, por isso não tá nem aí com as coisa dos outros.

joao disse...

saquei que o lance começou no metrô de NY nos setenta. o lance de tags, nome de matricula, dinastias, SUPERBEE SPIX COLA 139 KOOL CRAZY CROSS 136. acho que em sampa o lance se particularizou, dizem que não é igual em lugar nenhum. segundo a história oficial o bagulho chegou lá pelos estudantes de comunicações e artes e depois popularizou. li uma história interessante sobre o cara que pixava 'celacanto provoca maremoto' e depois a mina foi lá e fez o lance com azulejos com essa referência (só pode), e tudo veio de um episódio do national kid. mas acho que foi caligrafia do desconforto que fez a diferença mesmo.