31.7.09

O mal do arquivo

Um dos problemas mais sérios do país, provavelmente, é o problema do arquivo. Quer dizer, da falta do arquivo. Todo mundo sabe disso. E arquivo é muita coisa: documento, mas também biblioteca. Mesmo um arquivo que existe, quando existe, é mal conservado: não há organização, não há segurança, as folhas são grampeadas, os livros são riscados. De vez em quando ouço algum relato horroroso.

Ontem eu estava tomando umas Brahmas na Kibelândia, no fim da tarde, esperando um amigo, e tinha uns bêbados analisando uma foto na mesa do lado. Um deles - pude reconhecer - era o escritor Raúl Caldas Filho. Na foto estavam oito ou nove escritores reunidos, alguns ainda conhecidos, era uma foto com data de 1963, um ano antes da Revolução, segundo diziam. Bêbado tem uma precisão às vezes que me encanta. Mesmo que seja falsa. E eu escutava tudo, naturalmente. Também não tinha muitas escolhas. Eles gritavam, de fato: este é Silveira de Souza!! este é Péricles Prade!! este é..... como chamava mesmo o pobre diabo!? Morreu cedo, o infeliz.... Isto é memória!! Intelectuais reunidos!! Oh tempo bom!

Na mesa do lado, ainda, havia outro sujeito, sozinho, com um copo na mão, muito sóbrio. Dez minutos depois eu soube que o sujeito trabalhou no jornal O Estado durante muitos anos e foi um dos responsáveis pela entrada da RBS em Santa Catarina, no começo da década de 80. Dizia que O Estado, que hoje é um folheto vagabundo - morreu cedo o infeliz ... - era um dos grandes jornais do sul do país. Parece que a RBS quis comprá-lo e o dono respondeu algo assim: não vendo meu jornal pra gaúcho. No bar, o sujeito conhecia todos os bêbados, tinha certa intimidade com eles. Começaram a conversar sobre fotografias. Sobre memória. Que o Brasil não tem memória. O enunciado o Brasil não tem memória, a meu ver, é o equivalente intelectual do te considero pracaralho. Papo de bêbado.

Mas tudo pra lembrar que, no meio da festa, o sujeito acabou dizendo que 95% da memória visual da Novembrada foi feita pelo jornal O Estado - ele era chefe de reportagem, na ocasião - e dia destes, parece, como o jornal não tinha mais espaço pra nada, alguém queimou grande parte do acervo de seus negativos. Os mais velhos. A Novembrada foi junto.

5 comentários:

Anônimo disse...

Se "O Brasil não tem memória" é papo de bêbado, o que dizer do primeiro parágrafo?

Anônimo disse...

o que interessa é a sua resposta no dc de hoje. coitadinha da professora.

Victor da Rosa disse...

Não acho que seja um enunciado necessariamente falso, mas um enunciado-clichê que impede enxergar outras coisas ao redor do problema. Duas coisas: o arquivo não é o único modo de construção de memória e o esquecimento, a meu ver, também possibilita outras formas de criação.

Anônimo disse...

quais?

jess. disse...

parte do arquivo d'O Estado está jogada às traças na SC-401. é de chorar