1.8.09

Carnaval fora de época

Publicado no DCultura, aqui.

A ofensa nua, no interior de um debate crítico, extrapola mesmo - e apaga, de fato - qualquer diferença possível. Quando a ofensa alcança níveis pessoais e quer invadir a esfera do privado, sem nenhuma justificativa, então a diferença passa a ser uma qualidade fora de questão. É provável que a diferença exista; mas é lamentável, por outro lado, que desapareça abraçada com o ressentimento. Trata-se, enfim, da ofensa em seu grau-zero, ou seja: da ofensa enquanto única força que movimenta um discurso. Acaba sendo necessário, então, dar um passo atrás diante daquilo que já se considerava um recuo: debater não mais sobre a inexistência de um debate, talvez, mas sobre o próprio sintoma da inexistência.

O artigo de Fátima Lima, publicado no DCultura do último sábado, sugere pelo menos uma incoerência: a professora faz inúmeras perguntas sobre meu texto anterior, expõe até algumas dúvidas, talvez espere uma resposta, não se sabe, mas finaliza escrevendo que não quer mais a minha interlocução, pois prefere debater com um defunto. Em outras palavras, a estrutura do artigo apenas reafirma o que a inconsistência crítica da autora nos diz com toda a insistência: o debate deve ser apagado. Nada mais sintomático, afinal. O artigo em questão acaba funcionando, de algum modo, infelizmente, como um pequeno eco do diagnóstico: é a própria medida de nossa pobreza.

Meu texto procura abrir a discussão de uma idéia muito clara mesmo: a ausência de debate público sobre arte na cidade; o texto de Fátima Lima, por outro lado, durante a maior parte do tempo, esquece qualquer debate para girar em torno das ofensas: a autora diz que eu não entendo nada de arte - embora não apresente nenhum argumento para fazer tal afirmação (o que constitui, a meu ver, mais uma vez, um enunciado de autoridade pura) - antes pergunta quem eu penso que sou, como se isso estivesse em questão, fala sobre os livros que eu não li, cita Caillois e Lacan, se ressente "dos quadros da literatura" - leia-se: da minha formação - e ainda aconselha, por fim, sabe-se lá o motivo, que eu ouça a música de Michael Jackson. Faço esforço para entender.

No entanto, perdido no meio de tanta confusão, salvo engano, há dois argumentos. O primeiro é frágil e o segundo é falso mesmo, adianto. O primeiro diz que "o meu lamento funciona como o sinal da falta". Seria um argumento razoável se eu não tivesse escrito, antes, dezenas de artigos analíticos sobre artes visuais e literatura da cidade e na cidade, se eu não tivesse participado de inúmeros debates, realizado curadorias, se eu não acompanhasse a produção de muitos outros artistas, enfim - o que demonstra, naturalmente, que a minha posição não é a da lamúria, mas propositiva. Não faço carnaval fora de época.

E há ainda uma variação do mesmo argumento, logo depois: a de que eu menciono alguns eventos, mas não me posiciono em relação a eles - no artigo, inclusive, aparece o discutível verbo "defender", que sugere uma divertida imprecisão conceitual entre o lugar do crítico e o lugar do jurista. Eu ficaria satisfeito dizendo apenas que a autora exige que eu ocupe um lugar impossível, a saber: a análise de três eventos em meia página de jornal. Eu teria analisado os três eventos, naturalmente, caso meu texto tivesse em vista tal objetivo. Sendo três intervenções ocorridas em sequência e ao mesmo tempo com polêmicas tão marcadas - uma mais que a outra, é provável - prefiro considerar que a ausência completa de qualquer reação é ainda mais grave do que as primeiras ações. Ainda, seria no mínimo leviano de minha parte fazer qualquer reflexão mais conclusiva sobre os eventos sem o mínimo de argumentação. De qualquer modo, a forma mais inteligente de omissão, se fosse o caso, seria justamente o silêncio. Está claro que não se trata disso.

Mas o único argumento do artigo, digamos assim, que se aproxima do problema que sugiro, não por acaso, acaba sendo o mais precário - e nem digo precário, pois se trata de um argumento necessariamente falso, ilógico na própria construção. Cito: "(...) se do fato de que muitos não se ponham a escrever publicamente decorre, necessariamente, a inexistência de crítica, arte ou debate nesta cidade." De fato, não entendo outra maneira possível de crítica que não aconteça no interior de uma esfera pública, aberta. Nem de arte. Desde a Grécia Antiga, aliás. A reunião de departamento, por exemplo, não é um lugar aberto. Um jantar, menos. Lugar de autocrítica, por sua vez, é no chuveiro. Ou no divã, como queira. Talvez até na reunião do departamento, nunca se sabe. Quer me parecer contraditório, enfim, que uma professora universitária atribua à esfera pública um valor puro de exibição. Debate público não é auto-ajuda.

As outras inúmeras contradições e fraquezas conceituais do artigo de Fátima Lima, assim como a confusão e a falta de elegância do texto - que apresenta uma cacocofonia horrorosa já no título - enfim, ficam por conta do leitor. Sequer ofendem e tampouco levam o debate adiante. O artigo diz que sou, ao mesmo tempo, entendiado e divertido; reclama minha posição, mas não toma para si o direito daquilo que no outro é dever; justifica que não se estenderá em um determinado assunto porque já o resolveu por e-mail, como se o e-mail fosse acessível de todos. Ou seja, tudo não passa de um carnaval fora de época. Se eu fosse amigo da autora, aliás, eu não recomendaria a publicação. Há uma máxima muito instrutiva, afinal, que circula nos quadros da literatura: “não há poeta essencialmente ruim, há poeta sem amigo.”

(publico a versão original do texto porque há algumas revisões, no jornal, que não me agradaram)

13 comentários:

Anônimo disse...

um pior que o outro.

Anônimo disse...

levou uma marteladinha e ficou ofendido? que jogo de espelhos interessante, a diferença, aqui, é um currículo invejável. Santa Catarina é pequena demais para tanta inteligência.

Anônimo disse...

hoje vi o viCtor num farol, ele não fazia malabares, brandava de porta em porta "olha o que eu já fiz, não tem relevância?! seus pobres! ninguém dá publicidade pros meus amigos!! seus pobres, essa ilha só tem gente pobreee!!!"
sério fotos foram tiradas.

Anônimo disse...

"brandava"... Vai aprender a escrever. O Victor é um gênio. Ninguém pode criticá-lo. Pior que esse tal de Anônimo só a falta de currículo de quem o critica. Esses professores devem calar a boca. E aquela galeria de arte tem que fechar as portas, concordo plenamente! Heil Victor!

Anônimo disse...

palhaçada total. da galeria, dos organizadores, do erro, do crítico, da turminha de artista toda. palhaçada

Anônimo disse...

a partir de agora, só serão aceitos comentário que agrade todos os lados. política coerente do dono do blog.

Anônimo disse...

essa é terra do faz de conta. faz de conta que eu escrevo. se escrever mesmo, eu não publico.

Anônimo disse...

voCcê tá se achando muito my love, desse jeito vou parar de te "dar" tanta bola! a fofy aqui não gosta de "metidos", então vê se fiCca esperto pra continuar "me tendo"! desce do salto, porque eu já fico nele, dois não dá!

Anônimo disse...

se o victor publicou estes comentários, fico só imaginando os comentários que ele recusou.

Anônimo disse...

ser anônimo é: escrever besteiras sem sair do anonimato

Anônimo disse...

essa mensagem de que o cometário passará pelo crivo do victor é uma pressão psicológica. por isso, os textos são tão bons. todos dão o seu melhor.

Anônimo disse...

tem o grupo da martelada; o grupo dos picaretas; o grupo dos " deixa disso"; e, o grupo dos que botam lenha na fogueira; ah! tem ainda o grupo que só pega carona na onda toda.

Anônimo disse...

e tem o grupinho dos anônimos também