11.8.09

Diário de Gramado (II)

Publicado no Caderno Variedades, do DC, aqui

Ontem a Dira Paes foi homenageada. Não pude assistir sua coletiva, mas o pessoal diz que a moça é uma simpatia, consistente. É incrível a tietagem por aqui, aliás. Pra entrar na sala de cinema, você tem que caminhar 200m em um tapete vermelho, com pessoas gritando em volta. As pessoas pagam mais pra caminhar, decerto, e menos pra assistir os filmes, necessariamente. Quando a Dira chegou, trinta fotógrafos pelo menos correram em sua direção. O resto não pude ver.

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Já dentro do cinema, uma senhora fala no telefone, com muito entusiasmo: "Ahh guria, eu andei no tapete vermelho e adivinha quem está agora na minha frente, bem na minha frente! Hum, hum. A Dira Paes!!... A Dira Paes, você não sabe? Aquela da novela!... iiiiisso!" Em seu discurso, Dira diz que acompanhou, como atriz, parte da história do cinema nacional: iniciou sua carreira no final da década de oitenta, quando fazer cinema era um gesto underground, segundo suas palavras; depois trabalhou em alguns filmes no começo da década de noventa, quando o cinema brasileiro quase nem existia; por fim pegou a explosão do fim dos noventa, com Cronicamente inviável; e agora, já conhecida, destacou sua participação em Festa da Menina Morta. A atriz, enfim, termina seu discurso com uma série de trocadilhos que divertiu o público: Dia dos Pais, meu pai, Dira Paes, tudo em paz. A senhora do telefone fica visivelmente emocionada.

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O filme que abriu o Festival, ainda fora da competição, foi um cult cubano de 1968, "Memórias de subdesenvolvimento". Uma pequena obra-prima, de fato. Aliás, como membro do Júri, estou proibido de fazer qualquer juízo de valor sobre os filmes que participam da mostra competitiva. Não posso nem falar com os outros jurados. Na janta todo mundo se segura. Como falar de cinema sem comentar os filmes é algo que eu ainda terei que descobrir durante a semana. "Memórias do subdesenvolvimento" foi apresentado como documentário, mas não é, e o equívoco é corrigido na sequência. Um dos responsáveis pelo filme, que veio de Havana, ao enfatizar a relação entre arte e política, diz que é importante que o Festival de Gramado retome seu interesse por filmes engajados. Neste momento, a senhora ainda chorava e não deve ter escutado nada.

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O divertido aqui é encontrar atores globais em toda esquina. Até quem não está participando de nada vem acompanhar o Festival. Ontem, em uma festa, troquei uma idéia com Viviane Pasmanter, uma das protagonistas do filme de Quase um tango, longa gaúcho que abriu a mostra competitiva. A Viviane é uma pessoa normal. Parou de fumar faz três semanas. Eu disse que não fazia diferença, pois agora em São Paulo não se pode mais fumar mesmo. E fiz piada também com um ator carioca que trabalhou em alguma coisa que não lembro. Perguntei pra que time ele torcia. Era flamenguista. No saguão do cinema mesmo, em cada intervalo, parte dos globais desfilam e tiram fotos. Se você tiver sorte, acaba saindo em uma foto também.

5 comentários:

Anônimo disse...

huuummm.... e você de OLHO na Dira Paes!!

Lucian disse...

Foi em película o Memórias do Subdesenvolvimento?

Victor da Rosa disse...

Sim, Lucian. Em película. Filmaço, não? Por aqui, quase ninguém viu.

Lucian disse...

Sim, filmaço. Que privilégio vê-lo no cinema. Pelo menos o festival começou bem.

Anônimo disse...

"Você não vale nada, mas eu gosto de você".