27.8.09

Nota sobre o abandono

Estamos sempre nos perguntando sobre o encontro, possíveis formas de encontro, mas quase nunca nos perguntamos sobre possíveis formas de abandono. E perguntar sobre o abandono - sobre uma ética do abandono, talvez - faz cada vez mais sentido para o imaginário contemporâneo, parece. A experiência do abandono nos obriga a lidar não com o plano da presença - leia-se: o plano da cultura (um plano mediano, portanto) - mas com o próprio vazio. Nisso consiste, aliás, toda a sua violência. No entanto, como proceder? É verdade que o encontro também nos posiciona em uma situação iminente de deslocamento, mas se trata, a meu ver, de um deslocamento sem o mesmo risco. O abandono talvez seja a experiência que toca mais perto a loucura.

3 comentários:

Anônimo disse...

discordo, victor. não existe não se relacionar com o plano da cultura, viver o plano do vazio. aliás, o declínio do ideal dourado da contracultura dos anos 60 e 70 nos mostra isso. a própria experiência do vazio é algo resultante da cultura, pela presença, pela relação com o que quer que seja, mesmo que sejamos só nós, humanos e cheios de humanidade. o risco está na presença, fora da presença não há nada, nem a loucura. não há loucura fora da cultura, victor, pq não há humanidade fora da cultura, não há. mais do que nunca a violência do abandono é uma experiência da nossa cultura e eu acho que nunca senti tanto abandono antes.

Victor da Rosa disse...

é um modo de pensar. de qualquer modo, acredito que a arte faça a cultura - penso como norma mesmo - falhar.

MCris (from afar, long ago) disse...

Você quer dizer o abandono de abandonar ou ser abandonado ou o abandonar-se em/por/a favor de algo ou alguém?

Há muito mais formas de abandono do que nós sonhamos nos perguntar...