24.10.09

100 MENOS UM [o prefácio inteiro]

Joan Brossa nasceu em 19 de janeiro de 1919 e faleceu em 30 de dezembro de 1998, quase em 1999, com 79 anos de idade. Se não bastasse o acaso, Brossa faria 90 anos de idade no dia 19 de janeiro deste ano de 2009. É quase magia. São coisas que talvez só possam acontecer com Brossa.

É muito provável que Brossa gostasse tanto de mágicas, principalmente dos jogos de mão, quanto de poesia. Em muitas de suas entrevistas, aliás, o poeta insistia na idéia de que não há nenhuma cisão entre poesia e magia. Hoje, em Barcelona, ainda existe uma loja de objetos relacionados ao truque devido a um grande esforço de Brossa, há alguns anos, para que não se tornasse um escritório ou uma padaria. Na biblioteca de Brossa, por fim, pude encontrar o exemplar de um livro sobre mágicas – no meio de tantos outros - com prefácio assinado pelo próprio artista.

Os números, por sua vez, também são determinantes na obra de Joan Brossa. Calendários, jogos, formas, relógios, medidas, números de telefone, dinheiro, cartas. Os números podem conciliar, em toda a obra de Brossa, sua preocupação mais abstrata com a magia e, ao mesmo tempo, as aparições mais contingenciais e concretas do cotidiano; a alusão direta ao jogo e ao mesmo tempo à métrica – constituindo certa filiação poética que encontra desde Mallarmé e Marcel Duchamp até Frègoli, um transformista italiano do início do século XX – até a passagem para o campo das artes visuais e, portanto, a um domínio informe das formas.

Neste campo infinito, talvez o número três e assim também o número nove, de algum modo, tenha algumas aparições notáveis. Ronald Polito, no prefácio que escreve para a edição brasileira de Sumário Astral, enfatiza justamente certa fixação de Brossa em torno do número três, por exemplo. “O poema é dividido em 3 partes, na primeira o poeta cita 3 elementos (‘a terra, o céu e a água’) e no final da segunda ele se refere às 3 letras iniciais de seu nome (que ele quer que permaneça ‘secreto’) e encerra a terceira parte sentenciando que agora ele só presta atenção ‘em formas triangulares.’” Mas já no livro El saltamartí, de 1969, quase trinta anos antes de Sumário Astral, aparece um poema como este, que não está na antologia:

ÀS ANDORINHAS

333.333.333.333...
e assim até o infinito.

Desta maneira, noventa e nove é um número que deseja marcar, talvez de modo paradoxal, repetição, excesso e falta. Nosso desejo sempre foi o de realizar uma antologia que pudesse recuperar o espírito – ou o procedimento mesmo, sua lição, o modo de fazer - brossiano. Ao mesmo tempo, recuperar uma data que é não menos paradoxal: 90 anos de vida, 10 anos de morte, 99 poemas. É quase magia. São coisas que só podemos aprender com Brossa.

Victor da Rosa,
Florianópolis, 23 de março de 2009

4 comentários:

Anônimo disse...

ah tá, agora entendi. =)

Fábio Brüggemann disse...

eu quero um exemplar. já tem na livros & livros?

Í.ta** disse...

bom pra caramba!

parabéns o texto.

Anônimo disse...

victor, desejo que essa antologia seja um sucesso. Vcs merecem, Brossa merece.
mário rosa