5.10.09

A alegria é a prova dos nove [correspondências]

olá, eduardo,
gostei muito de ler o teu ensaio.
sua escrita tem velocidade, parece; é como se você tivesse pensando no tempo presente.
depois, tem um grande equilíbrio entre erudição teórica e poder de leitura.
nisso é interessante porque você lê agamben também pelo procedimento. assim se entende que o exercício crítico é também um exercício poético, imagino. ou seja, através de um procedimento de leitura que parece também uma alegria da escrita - a erudição é acompanhada pelo corte - você lê lendo a si próprio.
o que mais me causa incômodo na leitura de grande parte dos críticos brasileiros é a falta de reflexão sobre o próprio procedimento crítico. parece que não perguntam o como ler. talvez coisa que os poetas, por serem poetas, perceberam melhor.
você trabalha com associações no plano do visível e ao mesmo tempo consegue resultados bem inusitados. as relações ficam pairando, você não entrega nada com facilidade, o que deixa vivo nosso interesse pela leitura.
acho que talvez haja um corte abrupto de dante aos modernistas. o que você pensa sobre isso? gostaria muito de saber também - é uma dúvida meio estúpida, será? - o motivo que te leva a usar a poesia de dante como ponto de partida tão contundente. você acha que o contágio da tragédia pela comédia é fundamentalmente (aspas aqui) dantesco? e o quixote, parente próximo? não quis saber do gregório? são derivas, naturalmente, e não cobranças.
outra coisa: o que você acha de uma aparição do poético fora da escrita - pensando no teu ensaio ainda - já que dante tem um pé na modernidade (na imprensa, no papel, no livro) e outro fora? o uso do corpo é importante pra poesia brasileira, talvez. penso em um crítico - meio medievalista às vezes - que considero muito interessante: gumbrecht.
bem, são algumas impressões e dúvidas que surgiram da leitura d'a prova dos nove, que é um excelente título, aliás, pinçado.
abraço em você,
victor.

* * *

Olá, Victor,

Muito obrigado pelo que diz do meu livrinho! Você pegou bem a questão que vem me obcecando já há anos - a necessidade de sempre, a cada passo, implícita ou explicitamente, refletir sobre o próprio procedimento crítico. Neste ensaio, acho que isso fica bem claro na forma que ele tomou. Mas na minha tese sobre Dante tenho extensas considerações a respeito. Sempre achei muito estranho que vários críticos, sobretudo aqui em SP, demonstrem verdadeiro horror à reflexão teórica e sobretudo epistemológica. Como se o ato do conhecimento (ou da crítica) e seu objeto fossem realidades absolutamente estáveis, dadas de uma vez por todas, a qualquer um que se disponha a enfrentá-los...

O corte abrupto de Dante aos modernistas foi proposital, eu diria mesmo estratégico - para tentar abalar um pouco as estruturas mentais com que costumamos olhar as coisas aqui no Brasil, com cada coisa em seu "devido" lugar. Mas, de qualquer modo (pa ra responder às suas outras perguntas), a premissa subjacente é a constatação (longamente justificada na minha tese) de que Dante é o autor inaugural de um novo momento literário que, provocativamente (mas antes de tudo filologicamente), podemos chamar de modernidade, o qual, a meu ver, se estende desde fins da Idade Média até pelo menos o final do século XIX ou início do XX, e, em alguma medida, sobrevive, residualmente, até hoje. Temos ali, em Dante (e antes na Vita Nova que na Commedia), a irrupção ou origem (no sentido benjaminiano, de Ursprung) de algo fundamentalmente diverso da "literatura" antiga ou propriamente medieval. Trata-se de uma série de fatores, a começar pela transição da vocalidade à escrita, mas passando também pela reivindicação de uma voz autoral antes inexistente, marcadamente pessoal - Dante se nomeia Dante várias vezes em seus textos - e ao mesmo tempo marcadamente crítica e autocrítica. É neste quadro que temos um repensamento da "política" dos gêneros tradicionais, com a emergência de uma zona de indistinção (teórica, mas antes de tudo prática) entre tragédia e comédia, ou entre trágico e cômico, na qual Dante se encontra em casa. Sendo assim, se escolhi falar de Dante, e não de Cervantes ou Gregório, foi antes de tudo por uma questão de prioridade temporal: é em Dante que as coisas acontecem pela primeira vez, foi ele que abriu a possibilidade de que um Cervantes ocorresse. (Aqui, não estou dizendo nada de fundamentalmente novo - basta ver o que diz um Auerbach, por exemplo. Não por acaso, aliás, citado por Benjamin em seu texto sobre o surrealismo... Em certa filologia, este vínculo anacrônico entre Dante e o modernismo esteve sempre presente.) O que quis com meu livrinho foi antes de tudo mostrar como esta reflexão e esta prática que tomam forma originalmente com Dante continuam vivas (sobreviventes?) no modernismo, mesmo no brasileiro.

Gumbrecht é muito bom; A modernização dos sentidos foi uma coletânea de ensaios que me animou a seguir na minha hipótese de leitura de Dante.

Mas falei demais. Queria antes de tudo dizer que gostei do seu "romance despedaçado" (acho que é esta a expressão que utiliza o Sérgio Medeiros, certo?), gostei sobretudo do modo como você cria uma espécie de prosa atmosférica, em que o movimento do texto parece se dar todo no espaço entre um fragmento e outro, mas também entre uma frase e outra. Obrigado pelo livro!

Um abraço grande do
Eduardo

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