6.10.09

Quando a verdade é ninharia ou luxo

Como uma pessoa pode negar dinheiro a um mendigo segundo o argumento de que o sujeito está mentindo? Qual é o valor da verdade afinal quando qualquer dignidade já está completamente dilacerada? Sempre que posso dou dinheiro aos mendigos, não estou ligando se está mentindo ou dizendo a verdade e muito menos no que vai fazer com o dinheiro depois - acho muito melhor tratar direto com o sujeito do que pagar fotocópias às ONGs, por exemplo. É claro que um mendigo, assim como nós, pode fazer com seu dinheiro o que considera melhor, inclusive se destruir. Dou, talvez, não pela possibilidade da verdade, mas pela qualidade da mentira. Sempre que posso também converso com os sujeitos porque na maioria das vezes são muito mais interessantes e mais frágeis do que nós. O valor da verdade na linguagem não é nada, enfim, se comparado com o gesto (performático) de um pedido como este, risco psicológico completo, desnudamento, limite - é ninharia ou luxo.

2 comentários:

Anônimo disse...

tem uma mulher pedinte que me persegue. encontro ela em todos os lugares: supermercado, shopping, centro e ruas arredores. sua figura mais do que triste me comove e incomoda - magra, alta, quase sem dentes e com um jeito de quem já foi mais do que judiada - e ela mente, já mentiu pra mim, inclusive, uma vez na renner dei uma grana para ela comprar uma sandália pra filhinha dela e depois, no piso de baixo ela tava segurando a sandália e pedindo grana para outra senhora. fiquei com raiva, mas é o jeito que ela tem para se virar, se fosse eu no lugar dela nem sei o que faria. mesmo sabendo das suas mentiras dela, no final ela sempre me convence. toda vez que a encontro, por uma questão política idiota, sempre me preparo de antemão para dizer não (como faço com todos os pedintes) e no final acabo dando alguma coisa a ela (como também faço com todos os pedintes).
de uns tempos para cá vejo ela vendendo flores nos sinais e já comprei duas vezes. hoje a encontrei, estava com pressa e disse a mim mesma que não iria comprar as flores. ela me disse: "tô morrendo de fome, tô fazendo as rosas por 2,50". eu só tinha R$ 2,00 e dei a ela e disse que não precisava me dar as rosas (nas mãos ela só tinha aquele ramalhete), que iriam murchar no carro quente e que ela vendesse para outra pessoa. no fundo minha intenção não foi só de ajudar, mas também de desdém com aquelas rosas murchas.
na volta ela me encontrou e veio sorrindo, correndo em direção ao meu carro (nem me preparei para o não pq não tinha a visto. vê-la foi quase um susto). "ô, fosse tu que me desse aqueles dois pila ainda a pouco, não foi?" eu sorri e fiz que sim. ela falou, pô, com a tua grana mais as rosas que vendi pro cara atrás de ti consegui almoçar. brigada, heim, pega essas rosas novinhas de presente." eu fiquei chocada e aceitei. nem lembrei de dizer que não precisava, nem de oferecer mais uma grana para ela. aceitei, o sinal abriu e fui embora meio embasbacada com o presente da pedinte. nem precisa dizer que ela não precisava ter feito isso, né?
bem, toda essa história só para dizer que concordo contigo, victor, qual o valor da verdade para quem está nessa condição? mentir ou dizer a verdade não tem a menor importância, o importante é continuar vivendo do jeito que dá.

ah, e essa história poderia até ser mentira, mas é verdade.

Anônimo disse...

ontem eu dei 5 pila para um pedinte. acho que ele estava drogado. isso me comoveu. fiquei até com vontade de me drogar depois. como é bom jogar dinheiro fora sem ao menos tê-lo. que deus salve os loucos e fracassados. evoé!