19.10.09

A volta dos que não foram

Meu tio já está no quarto casamento e vive inclusive separando da mulher atual. Ninguém sabe o que há nesta quarta mulher pra que ele volte tanto e todos da família estamos querendo descobrir maiores nuanças da situação. O fim é sempre "completamente definitivo, sem volta, não dá mais", como deve ser, mas as idéias, está claro, jamais correspondem aos fatos.

Isso não quer dizer, no entanto, que as separações são blefes necessários do meu tio; de fato, alguns defendem a tese de que eles separam tanto assim pra esquentar o casamento, outros dizem que meu tio é mal-amado e outros ainda argumentam que meu tio não gosta mais de sua mulher - uma minoria atrevida chega a dizer que ele tem uma amante e outra minoria apenas brinca dizendo que a moça não sabe cozinhar. De minha parte, defendo a hipótese mais simples: meu tio se separa acreditando na separação e volta acreditando no casamento. São dois os meus argumentos principais: 1) seu histórico não lhe dá espaço para blefes ou então meu tio perderia toda a credibilidade, somando o fato de que as separações provisórias estão se repetindo e nenhum grande jogador - como é o meu tio - blefa tanto; e 2) meu tio sempre faz uma mudancinha meio trabalhosa demais (televisão, aparelho de som com três caixas, computador, roupas) pra justificar apenas um blefe.

Pois bem. Da última vez que voltou pra casa da mulher, no domingo retrasado, meu tio levou um grande azar, pois acertou o retorno justamente no dia do aniversário da minha vó, ou seja: a família estava inteira reunida e meu tio, no andar de cima, negociando os detalhes com a mulher, teria que passar com a televisão e o aparelho de som pela sala, no meio de todo mundo, em direção a seu carro - ou o computador, no mínimo, mais útil, caso ele percebesse a tempo que estávamos com câmeras fotográficas e filmadoras pra registrar toda a sua saga.

Uns diziam: tem que ver na Brasil Telecom se há um plano de internet que fique de domingo à quarta numa casa e de quinta à sábado noutra. Meu pai, especialista em cinema, se limitava a repetir o nome do filme: a volta dos que não foram. Minha tia, mais kitsch, cantava forró: você não vale mas eu gosto de você.... Minha vó, a mais discreta, reprovava nossa atitude, apenas por etiqueta, já que adora baderna - mas era ela contra todos, de qualquer modo - e meu primo respondia inflexível: não adianta, vai chover flash no tio!! Depois disso, pelo menos, meu tio não separou mais.

Um comentário:

Carol disse...

victor,

sobre o casamento, te mando um link de um texto que eu adoro, de um amigo, lá vai:

http://emsimesmado.wordpress.com/2009/04/08/do-casamento/