25.11.09

Do nada ao lugar nenhum

Je suis hanté. L'Azur! l'Azur! l'Azur! l'Azur
Mallarmé

Talvez o esforço do artista mineiro Piatan Lube - e devemos pensar mesmo em esforço (poético e intelectual, certamente, mas físico também) já que tanto em Vitória quanto em Florianópolis, duas das três ilhas-capitais do Brasil, foram quase 3km de linha azul pintada no chão, em cada momento - talvez o esforço possa ser resumido em uma imagem: estender o nada ao lugar nenhum. "Caminho das águas", como se sabe, é uma intervenção que, através de uma marcação no chão das cidades - pode-se lembrar que linha e cor são os recursos mais elementares da história da pintura - pretende recuperar o limite onde o mar quebrava, apenas. É onde tudo começa.

O primeiro comentário diz respeito a uma leitura política; trata-se de um protesto. De fato, existe um dispositivo de intervenção política colocado em cena de modo aberto e até mesmo declarado: a ocupação. A linha invade ruas, calçadas, sobe em postes, cruza faixas de segurança, contorna bancos e objetos, ou seja: torna-se, ainda com algum silêncio, forçadamente visível.

Ao mesmo tempo - porque parece indispensável - tal ocupação é negociada com os poderes locais: um documento legal autoriza que a faixa faça um determinado trajeto e subtrai dos policiais, por exemplo, como aconteceu no sábado, 21, qualquer possibilidade de interdição. Em Vitória, a faixa foi realizada durante uma madrugada; em Florianópolis, diferente, a realização aconteceu durante dois dias de um final de semana. A imagem do artista contra a máquina, a meu ver, está repensada através de um uso pervertido de seus aparelhos.

A linha, ao rasurar o aterro, torna visível afinal justamente uma cidade que não existe mais, torna visível um desterro mesmo - o mar - já que o jogo de palavras acaba sendo inevitável; ou por outra, a linha remarca o imaginário perdido de uma paisagem. Não é aleatório que um dos interesses de Piatan seja também o de recolher e publicar depoimentos de pessoas - no caso, mais velhas - que viveram o trecho da cidade antes de ser aterrada.

Uma das marcas de "Caminho das águas" então passa a ser o desejo da formação, ainda que provisoriamente, de uma pequena memória coletiva - o artista voltará a sua cidade, a linha irá desaparecer com a ação do tempo, mas a memória talvez seja o que há de mais material nisso tudo. Um dos cuidados da intervençaõ de Piatan é o de saber escutar cada cidade e as pessoas da cidade com alguma atenção.

A intervenção política, depois - que poderia ficar no lugar comum, mas não fica - consegue se equilibrar em uma forte dicção plástica, poética. "Caminho das águas" é ainda uma pintura com extrema consistência de linguagem - em campo expandido, fora do quadro, no chão, como queira, mas pintura. A pintura consegue ser concisa, simples e até modesta - vale repetir que os recursos são os mais elementares possíveis: uma linha apenas e uma cor - mas também absolutamente direta e dispendiosa - foram mais de 20 pessoas realizando o trabalho durante dois dias, com mais de 20 litros de tinta para pintar quase 3km de chão, envolvendo uma difícil e até desafiadora estrutura de direção.

Em poucas palavras, ao mesmo tempo em que a pintura ativa elementos quase imateriais, infraleves: água, linha, memória, desaparição, também deve lidar com um processo que carrega certa dificuldade: a sujeira da rua, nas roupas, os galões de tinta, fechamento de ruas, o peso dos objetos, hostilidades, chuva.

E o artista, no meio de todo processo, também deve desaparecer. Sua intervenção passa a ser um aprendizado de música. As milhares de pessoas que passavam pelo Centro na segunda-feira - o processo de pintura acontece enquanto a cidade está deserta - sequer podiam saber do que se tratava. A cidade é um Museu; a linha olha e atravessa o outro com surpresa. É como se a linha afinal recuperasse o seu silêncio. Como se tudo voltasse a ser um risco, enfim, uma rasura que logo se apaga ou não se apaga afinal.

(fotografias e vídeos do trabalho no ES e uma entrevista com Piatan Lube, aqui)

5 comentários:

Lucian disse...

Antes o inferno e agora uma linha azul? Tu tá de brincadeira comigo, né, Victor?

Isso tem nome: retorno do recalcado. Não queres escrever sobre futebol, mas é inevitável, acontecerá. Estarei esperando.

Anônimo disse...

essa linha azul, de certo modo, remete ao futebol. penso que ele pintou a linha de azul para homenagear o glorioso avaí.

Livramento disse...

e a linha do figueira?
demarcaria onde existiam os antigos lixões da ilha.
e a linha do guarani de Palhoça?
demarcaria todas as bocas de fumo.

Victor da Rosa disse...

terei que bloquar os comentários outra vez, será?

Pasquale disse...

Bloquar?
Agora entendo porque você antes era chamado de escritor e agora de blogueiro.