15.12.09

Esculpir o poema [sobre Virna Teixeira]

Há uma série de resenhas que publiquei em jornais de 2005 a 2007, mais ou menos, e que não encontro mais em nenhum lugar da internet. Alguns textos eu ainda gosto; outros não; outros mais ou menos; e quase sempre são muito diferentes do que estou escrevendo agora. De qualquer modo, vou republicar alguns deles por aqui, pois assim podem pelo menos ser encontrados.

O primeiro deles chama Esculpir o poema, foi publicado em 2006 no Caderno Idéias do Jornal ANotícia, de SC e diz sobre a poesia da Virna Teixeira,
aqui, que acaba de lançar outro livro de poemas pela editora Lumme, aliás.

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Esculpir o poema

Leonardo da Vinci costumava criar uma diferença entre o procedimento do pintor e o procedimento do escultor. Para da Vinci, a relação que o pintor mantém com a matéria é uma relação de acúmulo, de acréscimo – o ato mesmo de acrescentar tinta na superfície de uma tela; por outro lado, o escultor mantém com a matéria uma relação de depuração e subtração – pois seu trabalho consiste em retirar matéria de um volume, de um corpo.

Os poemas de Virna Teixeira, assim, podem ser imaginados como pequenas esculturas no papel. Cada poema de seu último livro, "Distância", consiste numa depuração e subtração mesmo de palavras – é como se as palavras já descansassem na superfície da página e o trabalho de Virna fosse somente o de retirar aquelas que fizessem excesso, até chegar na "superfície mais viva das coisas", como escreve Adalberto Müller em pequeno ensaio que abre o livro. A poesia de Virna procura manter aquilo que o branco do papel pode oferecer de mais poético. De todo excesso que o olhar e a memória podem permitir, Virna retira dele o essencial.

Admiradora de Rachel Whiteread, escultora inglesa com quem dialoga através de "Fantasma", Virna cria uma escrita em que quase tudo é feito com precisão e espessura. Os poemas de "Distância" são de um material intenso e concreto, até pesado, pois cada palavra carrega o peso mesmo de todas as outras que não foram ditas – como em seu poema "Fotografia": "a solidão dele / na cozinha, perto // da janela // um vaso de / tulipas". Virna corta a sintaxe, desbasta elementos explicativos do poema através de elipses e apagamentos, sua frase dificilmente transmite uma idéia, e a palavra, assim, como se chamasse atenção para si, cria potência e significação. Virna diz pouco, e a palavra cria peso. Como se esculpisse o poema.

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O material da poesia de Virna, num primeiro momento do livro, nasce da própria observação das coisas – experiência, por sua vez, que surge a partir de uma trajetória, um percurso estrangeiro: que é sempre outro. Assim, o primeiro poema do livro, chamado "Migrante", é quase o aviso de uma viagem fluida e por vir, o próprio livro que se inicia: "pelo mar, a última / viagem // do convés, o vento // (...) fluida, a trilha / incerta // antes que em / terra, firme / lembrança (...)". O abrir da página é também um convite para se perder nessa distância, morrer um pouco nela – a página, superfície lisa e potente, como o mar, oferece o infinito. Escrever, aqui, portanto, é também atravessar esta superfície líquida, e se arremessar nesse devir incerto que o mar proporciona e desafia – "Toda viagem é, potencialmente, a última (...)", escreve Michel Foucault.

Dessa maneira, a inserção recorrente de palavras estrangeiras, às vezes até poemas inteiros escritos em inglês, e mesmo as referências a outros lugares – Lisboa, rio Tejo, Escócia, outros – dão indicações de um olhar que encontra distâncias, busca o deslocamento, e se propõe a sair de seu lugar para buscar esta diferença. Assim, é o próprio poema que sai de sua língua para encontrar outra e, dessa maneira, possibilita sua reinvenção. Trata-se de uma escolha deliberada de exílio – ambígua, porém deliberada. E nesse percurso, a única certeza é a de que existe outro mundo que se abre aos olhos – "outro continente / viria / pelo mar".

A escrita de Virna tem a força das coisas vistas pela primeira vez, e das coisas que não poderão mais ser vistas, pois aquilo que se dá a ver está sempre escapando a esse olhar que somente passa, e perde – "o que se vê / das margens, a / rapidez das / cenas". A tentativa, em muitos poemas, é de capturar este instante fugidio através de um olhar que se mantém distante do objeto – "pudesse recortar um / instante – este (...)". Em seu livro anterior, "Visita", Virna já procurava esse movimento fugidio, esse olhar passagem, através de uma idéia de visita – como, aliás, notou Manoel Ricardo de Lima naquele prefácio: "toda visita não deve, não pode ficar, como tivesse que ir embora".

É inevitável pensar na técnica da fotografia – sua capacidade de registrar um momento único e com exatidão concreta, momento nascido do encontro, ou da distância mesmo, entre objeto e olhar. Os verbos que aparecem, poucos, quase sempre são conjugados no presente. "Distância", dessa maneira, pode ser visto também como impressões de um "tal qual vejo", de um "isso eu vejo", anotações de paisagens, passagens, descrições de olhares – enfim, um álbum de fotografias. A diferença é que os poemas de Virna também fotografam a solidão, o inverno e a noite.

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Na segunda parte do livro, que Virna chama de "Entre Paredes", a distância parece ser outra. A viagem, agora, é por dentro, e a distância também se faz nesta dor. Não se trata mais de uma trajetória de olhares, e sim da distância que acontece na intimidade – tanto da casa, do carro, quanto da gente. Sobretudo, da gente. Se o lugar entre paredes poderia aparecer como lugar ideal do encontro e do entendimento, ele surge, pelo contrário, como outro modo de prolongar a distância e de fazê-la doer. Um vazio se abre, agora. Escreve Adalberto Müller: "(...) o espaço da casa, aqui, está longe de ser o lugar de uma trégua apaziguadora, em relação ao mundo lá de fora. Pelo contrário, dentro das paredes, a distância parece ser ainda maior".

Nesta parede, alguns versos se alongam, o respiro torna-se maior, pois agora a distância não se move mais – "O que fazia, falta. A sala deserta. O / piano tocado em silêncio. Quando não / havia ninguém, em casa // Pela janela passavam estações. Folhas, / outono // As horas de amor // Sombras". A distância agora é também uma prisão íntima onde o movimento não é mais possível. Ela se dilata. Os cortes anteriores na sintaxe, que apareciam como índices de um olhar que somente passa pelas coisas, até continuam, mas tornam-se menos acentuados em alguns poemas desta segunda parte. A gagueira da escrita, porém, não termina, como se quem lembrasse de um segredo hesitasse em dizê-lo. Aqui, proximidade e distância aparecem juntas, mas num estado de tensão doloroso, pois aquilo que está perto pode trazer uma distância maior.

A poesia de Virna, enfim, é também a distância de uma vida que não se recupera mais, uma distância no tempo, e que somente retorna pela lembrança. Assim, principalmente estes poemas que se fazem entre paredes, são feitos de ausências, vazios e silêncios. Muitos. Tudo que parte, quebra, se distancia, e tudo que falta – "(...) rostos / que desconhecem // o porquê – de estar / aqui", ou "uma cama vazia", ou ainda "e a fotografia / sobre a mesa / nunca enviada". Escrever, aqui, é também morrer um pouco. Daí o movimento de uma escrita que, voltando-se para dentro, "a escuridão lá dentro", e ampliando todo o silêncio de seu contorno, mesmo que discretamente, torna-se peso e também escultura.

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