4.1.10

Álbum de família (II)

A cadela aqui de casa está mal acostumada com as migalhas de comida que meu pai sempre lhe oferece - até pão de queijo ela já ganhou - e agora basta alguém sentar na mesa pra ela ficar olhando, sentadinha, balançando o rabo e com as duas orelhas empinadas, a 40cm de distância.

Ela se comunica pelas orelhas - diz o meu pai encantado, antes de jogar a sobremesa.

Eu não gosto nada da situação e sempre dou uma bronca tanto nela quanto no meu pai. Ela, que é muito esperta, já entendeu que de mim não ganhará nem mesmo um farelinho de nada. Meu pai, que é ainda mais esperto, apenas se faz de tolo.

Ontem meu irmão voltou da praia depois de uns três dias e a cadela, movida pela saudade, ficou especialmente excitada. Estávamos a família inteira na cozinha tomando café da tarde e a Malu rondava a mesa em busca de doces e afagos, naturalmente. Fiquei irritado com aquilo.

Esta cadela está um saco; não pode ver ninguém comendo; não suporto mais isso; etc etc - e todo mundo me deu razão, inclusive o meu pai.

Muito bem. Colocamos a cadela no quintal e fechamos a porta. Pronto. Nem ração ela está comendo mais. Isso está errado. É culpa do pai. E todo mundo concordou. Inclusive o pai.

Mas acontece que, por um destes lances do destino, a nossa casa tem duas portas de entrada pra cozinha e a cadela, em menos de 10 segundos, deu a volta inteira na casa e entrou pela segunda porta, que continuava aberta, sem mais nem menos. Entrou na cozinha com aquele mesmo modo: sentadinha, balançando o rabo, com as duas orelhas empinadas; e ofegante.

Todo mundo riu, menos eu, que engoli o riso a seco, e quando eu estava levantando da mesa pra colocá-la na rua outra vez, sentindo a minha autoridade manchada por uma cadela espertalhona, meu pai jogou um pedação de Panotene no ar, coisa que a Malu pegou sem deixar cair no chão.

Fica pelo mérito - resmungou o meu pai.

3 comentários:

gilvas disse...

"panetone", a menos que tua família seja iconoclasta, e use alguma marca esquisita.

pais viram avós dos bichos, tenhamos filhos ou não. sempre amolecem com eles. minha mãe ama as invasões do gato dela, ou mesmo as dos cães. a traquinagem a faz sorrir, ela olha para eles com um carinho que... bom, melhor não abrir o coração.

Anônimo disse...

que rabugento victor!!!!!

deixa a cadelinha em paz (imagina quando tiveres uns 40 anos então)! ela não te faz mal nenhum e ainda deixa o teu pai feliz!

vê se melhora em 2010, heim?!

Anônimo disse...

aaaadoro as histórias com teu pai. ele é otemo!