7.1.10

Confissão (I)



Quando era adolescente, há uns dez anos atrás, eu treinava xadrez no FXC e representava a cidade em competições estaduais - comecei nos jogos escolares, depois de ganhar o citadino juvenil, e cheguei aos Joguinhos Abertos, que já era uma competição considerada de nível acima do médio.

As competições de xadrez nos Joguinhos funcionavam do seguinte modo: cada equipe tinha 5 jogadores - 4 titulares e um reserva; os quatro titulares - mesa 1, 2, 3 e 4, geralmente escolhidos pelo nível do jogador (o mais forte na 1 e assim sucessivamente) - jogavam com os quatro titulares de outra equipe; cada partida valia um ponto e o empate valia meio, naturalmente; no final as quatro mesas eram somadas e chegava-se ao resultado, que podia ser 4 x 0, 3 x 1, 2 x 2, 3,5 x 0,5 ou 2,5, x 1,5.

As quatro mesas ficavam uma do lado da outra e podia-se acompanhar as partidas dos nossos parceiros, o que geralmente fazíamos, é claro, primeiro por uma questão de estratégia - às vezes minha partida estava dura mas eu não podia oferecer empate em nenhuma hipótese porque meus companheiros estavam piores, etc - e também porque cada partida durava em torno de três horas, então era razoável que levantássemos pra esticar o corpo e desfazer tensões. Pois bem.

Em uma semi-final, quando jogávamos contra a forte equipe de Chapecó - Rio do Sul também era forte e Jaraguá do Sul era sempre a grande favorita, devido principalmente a um japa que hoje é um dos jogadores mais fortes do país, Alexandre Fier (meu resultado mais marcante, dentre outros dois ou três, aliás, foi um empate com o Fier neste ano, empate que eu mesmo ofereci em posição superior, por medo de perder, e que me valeu uma grande bronca do técnico depois, paradoxalmente) - como dizia, no jogo contra Chapecó a nossa equipe trapaceou.

Enquanto eu tinha uma partida relativamente fácil - fui colocado na mesa 4 estrategicamente, pra garantir um ponto - meus três companheiros estavam com extremas dificuldades pra ganhar o restante dos pontos que nos levariam à final. Enquanto eu passeava no tabuleiro, também aproveitei pra passear pelas mesas e acompanhar as outras partidas. Em um momento ficamos apenas eu e o treinador de Chapecó acompanhando o jogo da mesa 1 - que era sempre a mais visada, mas neste momento estava praticamente vazia. E foi aí que meu parceiro, o jogador mais forte da equipe, um baixinho cabeçudo que só perdia para o Fier e que alguns anos depois ficou em quarto colocado geral no Vestibular da UFSC, cometeu uma falcatrua imperdoável para os padrões do fair play enxadrístico.

Há uma regra para qualquer competição mediana de xadrez: se você tocou em uma peça, deve jogar com ela. Mas meu colega não apenas tocou na peça, como também realizou o lance e acionou o relógio. Ao perceber a bobagem que fez, subitamente - um tipo de bobagem que nunca pode ser feita em uma partida oficial (naquele caso, além disso, era um lance que comprometia a classificação da equipe para as finais) - ele colocou a peça no lugar de antes e acionou o relógio a seu favor novamente. Seu adversário levou um susto e logo chamou o árbitro - no xadrez há um árbitro apenas para todas as mesas, pois geralmente não é fundamental a sua presença - e só restava ao árbitro ouvir as testemunhas.

E as testemunhas eram duas: eu e o treinador de Chapecó.

Resumo da ópera: desmenti, no meio de uma roda de 20 ou 30 pessoas - era a minha palavra contra a palavra do treinador adversário - meu colega acabou vencendo a partida, eu também venci, ganhamos o match por 2,5 a 1,5, fomos pra final contra Jaraguá e perdemos. Aliás, jogamos tão mal contra Jaraguá que parecia mais um modo de pedir perdão. E por que lembrei disso tantos anos depois? Porque dia destes cruzei com o treinador de Chapecó no centro da nossa cidade.

4 comentários:

Seu orientador disse...

Sugiro publicação

Anônimo disse...

ficou um pouco confuso pra mim...

sente só, agora que mudas de cidade eu te sigo.

Victor da Rosa disse...

é melhor ficar confuso mesmo porque foi uma coisa feia. de qualquer modo, as próximas confissões serão mais diretas e muito piores.

Anônimo disse...

Rosaboy, você infelizmente cometeu uma falha na história, comprometendo todo o engodo...
Esse história ocorreu em 1999 com o "gordo ladron" e não com o "cabeça do balon", lamento.
Abraço, espero que vc corrija, e se não achar por bem, que a memória apure melhor.
Abraço da Bohemia.