9.1.10

Do novo-riquismo ao bicho-grilismo

Para DC

A divisão da cidade entre Norte e Sul torna-se ainda mais acentuada no verão. São dois os estereótipos que dominam a cena: o novo-rico se concentra no Norte e o bicho-grilo no Sul. Pra facilitar o argumento, podemos eleger as duas praias mais representativas: Jurerê (que, não por acaso, ganha o sintomático sobrenome de Internacional) e Campeche (a praia com o maior número de vira-latas por metro quadrado).

Então parece cabível pensar que o bicho-grilismo é uma espécie de resistência ao novo-riquismo. Seria o autêntico contra o artificial. Se a gastronomia do novo-rico, por exemplo, consiste basicamente em variações de carnes– seja de churrasco ou peixe cru (a aleatoriedade, no caso, não é nada aleatória) – o bicho-grilo, por sua vez, só se alimenta com salada de rúcula, pizza integral e suco de beterraba.

Se você bisbilhotar as bibliotecas de cada região, logo perceberá que as leituras do novo-rico e do bicho-grilo também são completamente distintas. Enquanto o bicho-grilo adquire seus exemplares nas banquinhas da Lagoa, e os títulos vão dos manuais de tarô à biografia do Raul Seixas, o novo-rico aproveita o tempo vago no aeroporto Hercílio Luz pra dar uma piscadela ao último título de Lair Ribeiro, mas acha o volume espesso e acaba comprando a Revista Caras.

O novo-rico curte uma balada bem lounge, de preferência com o último DJ do Leste Europeu, e adora usar expressões como “gente bonita” e “qualidade de vida”; o bicho-grilo curte uma fogueirinha, digamos, bem longe, sempre reclama do trânsito da ilha, mas vive pedindo carona ao invés de comprar uma bicicleta. A insatisfação do primeiro se resume no atraso de voos em aeroportos; a insatisfação do segundo sempre termina com a abertura de uma nova ONG em defesa dos animais. De resto, são felizes.

De fato, salvo engano, estas são as duas únicas conformidades entre o novo-rico e o bicho-grilo: ambos se referem à Florianópolis como Floripa e estão sempre meio animados. Mas nem mesmo Floripa é capaz de fazer os dois mundos se aproximarem. As filas da SC-401 que o digam.


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Nota: Logo depois que enviei a crônica pro jornal, na terça, fiquei pensando se a palavra "movimento" não expressa melhor o fenômeno do que "estereótipo"; e se o termo hippismo - referência aos hippies - não fica melhor do que bicho-grilo, já que se aproveitaria uma sonoridade legal entre hippismo e novo-riquismo.

Um comentário:

Maloio disse...

bueno, cada texto é sempre um texto, nem te preciso lembrar, e acho que entrando as duas palavras da reserva: «movimento» e «hippismo», os sentidos seriam outros... e, eu, para mim, ficou melhor assim.
da ilha pouco conheço; esse ano, melhor, no final do ano passado estive por aí explorando a cidade, transporte coletivo e praias. é curioso, fiz justamente uma foto de um cachorro com pés banhados em espuma na Campeche (mas um final de tarde estupendo com um lânguido sol espreitando por entre nuvens - que não troco por outra das praias que conheci, nem mesmo pela D. Jurerê). contudo, estou bem longe de concordar contigo sobre a porcetagem de cães nas ditas areias da Campeche, só vi um (risos)... pensei em te encaminhar a foto, mas lembrei-me do teu texto da Malu, "ah", pensei, "deixa estar".
acho que é só.
abraço e excelente final de semana, maloio