23.2.10

Olhe-se no espelho, ignaro

Gatos podem ser ingratos. Por duas vezes morei com gatos que não eram necessariamente meus. Morei com a Persona em Florianópolis e agora estou morando com o Raul. Que formariam, aliás, um belo casal de gatos ingratos. A Persona ainda me dava um pouquinho de bola, mas o Raul simplesmente, posso perceber, não queria que eu existisse. O absoluto carinho que dedica a sua dona é equivalente ao resto de desprezo que dedica a mim. Não é que ele não goste de mim; ele sequer toma conhecimento de minha existência. Por mais que eu troque a sua água. Por mais que eu lhe sirva mais comida do que devo. É muito sedutor apenas quando quer dormir no meu guarda-roupa, coisa que me convence fácil, visto meu estado de complacência. Quando o Raul está deitado na sala, por exemplo, e chego pra lhe fazer algum carinho, pula de sua caixinha antes mesmo que eu chegue perto. É possível notar, tanto em seus olhos quanto em seu modo de andar, um desprezo absoluto por minha pessoa. Hoje de manhã, faz poucas horas, acordei com o Raul querendo entrar no quarto de sua amada dona. Estava querendo carinhos, naturalmente. Então abri a porta e lhe convidei amistosamente pra entrar no meu quarto. Fiz um miado patético pra tentar lhe convencer de que sou uma pessoa bacana. E então o Raul olhou pra mim como se dissesse: olhe-se no espelho, ignaro, e virou o rosto e continuou miando.

3 comentários:

Mirella Adriano disse...

ai, tadinho.

miimss disse...

Confesso que adorei a parte do miado patético, me fez dar razão ao desprezo do gato. ;P

Victor da Rosa disse...

eu já estava em um estado de desespero extremo.