19.2.10

Processo de pesquisa (I)

Eu, Pepa e Lorenzo, durante um café, na Fundació Brossa, conversávamos sobre algum assunto e chegamos a uma das últimas instalações de Brossa, Cadeias de Damocles, de 1994. Na verdade, eu tinha uma dúvida. A instalação consiste em inúmeros objetos meio fálicos – parecem falsos microfones – pendurados cada um com uma corrente todas anexadas no teto. Contei mais de duzentos. Falei para ambos que não conseguia identificar que objetos eram aqueles, com certo receio de revelar minha leitura - e eu sabia, afinal, que era uma leitura improvável demais – cheia de conotações sexuais. Pra ser sincero, a instalação Cadeias de Damocles sempre me pareceu uma série de pintos voando. Mas como havia também ainda uma dificuldade com a língua, pois ambos falavam catalão na maior parte do tempo, eu preferi não entrar em detalhes. Até que Pepa me disse que objeto era aquele, mas eu não conhecia a palavra que deveria conhecer. Já não sabia mesmo se Pepa estava falando espanhol ou catalão ou uma mistura de ambos ou algo próximos do português, no fim. Talvez Pepa estivesse se referindo a "Damocles", palavra que até hoje não descobri o significado. E ficamos um tempo neste desacordo até que Pepa, muito paciente, me chamou para segui-la. Eu queria desistir, a esta altura, não queria mais entender a instalação, não tinha problema, não era importante pras coisas que eu estava pesquisando, mas Pepa insistiu e Lorenzo aconselhou que eu não dissesse o contrário. Fui. Pepa foi na frente, muito decidida, entrando pelos corredores. Eu somente a seguia, calado. Até que Pepa abriu uma porta e fiquei um pouco surpreso quando percebi que se tratava da porta de um banheiro. Ela entrou e eu fiquei esperando na porta. Disse pra eu entrar. E então me mostrou, com a ponta dos dedos, a corrente de descargas do vaso sanitário. É como se a obra de Brossa estivesse ali, presente no objeto, disponível aos olhos, antes ou mesmo fora de qualquer nomeação.

2 comentários:

gilvas disse...

Eu ouvi falar de "espada de dâmocles" lendo gibi dos vingadores: a base de um vilão fodão tinha sido batizada como tal. Resolvi dar uma olhada no google, e olha só:

Dâmocles é uma figura participante de uma anedota moral que foi uma adição tardia para a cultura grega clássica.

A personagem pertence mais propriamente a um mito que à mitologia grega. A anedota aparentemente figurou na história perdida da Sicília por Timaeus de Tauromenium (c. 356 - 260 a.C.). Cícero pode tê-la lido no Diodorus Siculus. Ele fez o uso dela em suas Tusculan Disputations V.61 - 62.

Dâmocles, ao que parece, era um cortesão bastante bajulador na corte de Dionísio I de Siracusa - um tirano do século IV a.C.em Siracusa, Sicília. Ele dizia que, como um grande homem de poder e autoridade, Dionísio era verdadeiramente afortunado.

Dionísio ofereceu-se para trocar de lugar com ele por um dia, para que ele também pudesse sentir o gosto de toda esta sorte. À noite, um banquete foi realizado, onde Dâmocles adorou ser servido como um rei. Somente ao fim da refeição olhou para cima e percebeu uma espada afiada suspensa por um único fio de rabo de cavalo, suspensa diretamente sobre sua cabeça. Imediatamente perdeu o interesse pela excelente comida e pelos belos rapazes e abdicou de seu posto, dizendo que não queria mais ser tão afortunado.

A espada de Dâmocles é uma alusão freqüentemente usada para remeter a este conto, representando a insegurança daqueles com grande poder (devido à possibilidade deste poder lhes ser tomado de repente) ou, mais genericamente, a qualquer sentimento de danação iminente.

Victor da Rosa disse...

poxa, gilvas. muito bom. faz sentido. valeu o toque.