14.3.10

A escrita como moeda de troca

Em algum momento de Variações sobre o corpo, Michel Serres argumenta que no esporte, diferente da escrita - seja na filosofia, na literatura ou em qualquer lugar - o sujeito está imediatamente determinado em suas escolhas. Isto quer dizer que no esporte existe um regime de verdade que é de uma natureza bastante distinta (e oposta, talvez) da maneira como a escrita, cada vez mais indiferenciada, se relaciona com suas próprias consequências. A rigor, no esporte não há pose, mas posição. É possível pensar que tal indiferenciação acontece porque a escrita, em nossa sociedade, não depende mais do aparecimento do escritor, mas tal explicação parece apenas parcial, já que tal indiferenciação pode ser facilmente percebida inclusive na poesia contemporânea. A publicidade é o exemplo mais extremo disso, mas não o único: ali a escrita deve se tornar pura moeda, valor de troca, dinheiro. O que está em jogo, para Serres, ao pensar sobre o esporte, é uma política de vida que pode se fazer, agora, a partir do corpo. O senso de responsabilidade de um atleta pode ser percebido de modo apenas rarefeito no futebol, por exemplo, mas de modo radical no rappel ou no surf - onde uma escolha errada pode valer, no limite, a própria vida.

Um comentário:

Anônimo disse...

e o mesmo serve pra grande parte da crítica, você não concorda?