1.3.10

Futebol de graça



Chegará um momento em que o atacante dará um balão no zagueiro e o juiz marcará falta de ataque. Motivo da marcação: excesso de graça. Porque a graça está se tornando, faz tempo, a coisa mais negativa do futebol. Em pouco tempo, existirá uma lei contra a graça. Cada vez que um comentarista diz que um drible é algo desnecessário, eu lembro do futebol de Garrincha. Estou com Xico Sá, quando diz que "toda graça é uma necessidade". Neste mundinho, talvez a mais urgente das necessidades. Garrincha derrubava um João - driblando - e lhe dava as mãos para driblar outra vez. Aliás, o que era mais bonito no Garrincha é quando ele voltava pra trás. Garrincha só fazia gols quando ficava exausto de tanta graça. Era uma contingência. Por isso Wisnik diz que Garrincha mais parecia o Macunaíma. Depois tiveram outros jogadores com a mesma educação, é claro, embora nenhum deles tenha superado o mestre. O Edmundo, contra o Botafogo, diante do zagueiro, dançou a dança da bundinha na ponta direita. Túlio, na linha do gol, fez o gol de costas. Romário, Denílson, Djalminha. Ninguém esquece do primeiro gol de pênalti do Djalminha. Porque arte mesmo, como diz Cildo Meirelles, é aquilo que fica na memória. E ninguém dizia tanto que a graça era uma coisa proibida. Agora os comentaristas dizem que a graça não pode mais, técnicos e jogadores reproduzem e até a torcida repete. Ontem os meninos do Santos deram um baile no Corinthians, estão jogando bonito faz tempo, e hoje só se fala do excesso da graça. Do pontapé que deram no Marquinhos ninguém diz. Até Ronaldo - que é um dos primeiros atacantes do Brasil que representa muito o negócio da força, da objetividade e tudo isso - veio dizer que adversários "faltaram com respeito". Por favor. Querem nos convencer de que futebol não é feito de firula. Futebol é coisa de menino. E os meninos têm mesmo é que brincar.

6 comentários:

Fabricio C. Boppré disse...

Olha, concordo com tudo isso. Se um comentarista fala que não pode, ou censura o atacante, é para ser ignorado, não sabe o que tá falando, isso é óbvio. Se o juiz pune, pior ainda --- ainda que a regra, que fala de esportividade e tal, esteja do lado dele. Mas há casos e casos. Mas enfim. Agora, tem o lado do zagueiro, e esse eu defendo. Defendo o direito dele de ir ali e xingar o atacante, dar uma chegada mais forte --- quero dizer, censuro quem, depois de um lance completo desse, elogia o atacante pela graça, pela ação, e censura o zagueiro pela reação. São os dois lados da mesma moeda. Entrar para quebrar não pode, violência é condenável em qualquer circunstância, mas dar uma ombrada, por exemplo, ou falar um palavrão no ouvido do moleque, é do jogo, é a resposta natural de qualquer um que tenha sangue nas veias e acaba de ser humilhado. Cada um com suas armas. E outra, a dancinha do Edmundo na frente do Gonçalves, na boa, aquilo não foi nada disso, foi só ridículo, assim como é ridículo tu ver um espetáculo de dança de verdade, e depois ver a turma do É o Tchan dançando na boquinha da garrafa. Sem contar que o Botafogo acabou campeão. Menos ruins foram as embaixadinhas do Pedrinho em 2000. Foram legais, eu gostei, até porque no fim o Flamengo foi campeão e o Beto devolveu as embaixadinhas.

Í.ta** disse...

o que o neymar fez ontem, com o chicão, merecia apanhar. e ponto.

fora isso, o que ele faz quando o jogo tá valendo, tá ótimo. não perco um jogo do santos com essa guriada em campo desde o começo do ano.

e não consigo assistir a um jogo do pesado time do corinthians. ainda mais com um brucutu chamado roberto carlos em campo.

ah, e foi brincadeira o passe do marquinhos pro segundo gol do santos, hein?? fora de série.

Marlene Matheus disse...

E as embaixadas do Edílson em 99?
E o juiz ladrão de ontem? E o Timão que jogou com nove aguerrido e quase empatou? Que os jogadores do Corinthians mesmo com trinta anos e 90 quilos de média correram o tempo e o jogo inteiro? Porque é que ninguém fala?
Esse blogueiro é um bambi mesmo.
A graça no futebol está acabando na mesma proporção que a violência também, aí não tem mais graça mesmo.
Pois, o interessante seria ter a graça do menino e a pancada do zagueiro para quebrar a perna do moleque. Aí sim estaríamos retornando ao jogo, ao futebol. Porque se o zagueiro entra duro ele pode pegar um gancho de muitos jogos, mas se o moleque fica fazendo firulinha, cera, com o jogo parado tem gente que fica aplaudindo. Que a graça retorne e o sangue também. Não tem graça alguma ver sangue fora do campo entre as torcidas, e os jogadores saindo limpinhos. Aliás o melhor lance ontem foi a cotovelada do Dentinho naquele grosso do Pará. Lance bonito.
Ficar protegendo o drible é fácil quero ver proteger o zagueiro que se leva um olé põe o cara no chão.
Proteger a alegria, o drible, o espetáculo é tão fascista quanto porteger a objetividade no futebol.
Esse blogueiro está idolatrando demais os colunistas da folha e está tentando copiá-los fazendo o discurso comum. Sabe porque o Garrincha foi o Garrincha, porque ele não tinha medo de quebrar a perna, mesmo sabendo que corria o risco, pois, suas pernas já eram tortas. Naquela época zagueiro não pegava gancho por entrar violentamente, Garrincha não tinha medo disso e continuava driblando. Quero ver fazer firulinha colocando em risco o contrato com o time da Europa no fim do ano.

Victor da Rosa disse...

acho que estamos falando de dois esportes diferentes.

jean mafra em minúsculas disse...

concordo, em número e grau, victor.

Anônimo disse...

Penso que os zagueiros deveriam quebrar os joelhos desses jogadores imbecis e que só sabem fazer gracinhas para a tv. Futebol é negócio. Faz parte da cultura de massa, mas exige resultados objetivos. Fantasia é coisa do passado, coisa de saudosista que não entende nada do mundo atual. Sou a favor da extinção das gracinhas desnecessárias, mesmo. Pensem a respeito. Mas, pensem com razão e não com emoção.