10.3.10

Miramar, amor e nome

Esta peça visual é um dos achados de Oswald de Andrade. Trata-se de uma pequena série realizada com um carimbo de "Amaral Araras" e está presente n'O perfeito cozinheiro das almas deste mundo, espécie de diário da garçonnièrie que Oswald conservou com alguns amigos no final da década de dez. A relação entre amor, olhar, mar e nome já está apreendida no limite e na síntese que um objeto tão contingencial, mesmo assim, oferece: um carimbo (impressão, gravura). Prefiguração de muitos temas e procedimentos que irão aparecer em sua literatura mais tarde - o personagem João Miramar, salvo engano, aparece pela primeira vez no caderno, por exemplo, mas também o discurso sentimental, o trocadilho, o ready-made, a própria cisão entre arte e vida (tudo parece ter sido preparado ali) - a peça pode ser lida, ainda, pela relação visual que a escrita mantém com a página, como uma tomada poética pré-concretista.

PS: Infelizmente a edição d'O perfeito cozinheiro feita pela Globo não traz todas as páginas do diário em versão fac-similar, fato que corta metade de sua graça - já que se trata de um manuscrito com desenhos, grafias, cores, recortes - mas mesmo assim fica sendo uma das obras de Oswald - se é que podemos chamá-la estritamente de obra - que mais aprecio.