3.3.10

O fim do romance



Há obras que não são feitas para serem acabadas - quando questionam, de algum modo, a própria noção de obra. O processo, de Kafka, na medida em que descreve um processo interminável - e a ambiguidade do título é uma das coisas mais simples e mais complexas - não deve chegar ao fim. Como reza a história, trata-se de um romance inacabado. Kafka inclusive pediu a seu melhor amigo para queimá-lo; pedido que Borges, anos depois, responde com uma de suas célebres ironias: quem deseja queimar manuscritos não pede ao melhor amigo. Mas há outras obras com a mesma natureza. No século XIX, o maior exemplo talvez seja Bouvard e Pécuchet - os dois arquivistas malucos e incansáveis - talvez o romance mais contemporâneo de Flaubert. Há ainda leituras de Arthur Bispo do Rosário, por exemplo, que preferem pensá-lo como um artista que se dedicou a realizar uma peça única, porém infinita. Borges, por sua vez, salvo engano, não possui qualquer obra inacabada, mas talvez tenha sido o escritor que mais tematizou o assunto no século XX. Nestes casos, no entanto, o que mais impressiona é quando o texto, de fato, recebe o estatuto de acabado - estatuto que só o próprio autor pode lhe conferir, de fato. É quando o escritor sabe da falência de qualquer apreensão da totalidade, mas não abandona a falsa pretensão - todos sabem - de transformar o absoluto em livro. O ponto final, assim, é o gesto mais ambíguo. Penso em um romance como A vida modos de usar, de Perec. O que há de mais impressionante neste livro é que ele chega ao fim.

2 comentários:

Í.ta** disse...

taí, gostei desse olhar.

percebi que tenho de fazer marcadores em meus blogs.

estive hoje na ufsc, inscrevendo-me como aluno especial. semana que vem sai resultado. veremos...

abraço aê!

Christiano Scheiner disse...

as tuas palavras me aliviam, não gosto dos fins, os fins são toscos, meus fins são toscos, tudo que é fim é tosco. por isso, volta pra gente um pouco. bjns ;)