4.4.10

Entre os hooligans

O que torna Entre os vândalos (Cia do Bolso, 2010) um livro de interesse, a meu ver, diz respeito sobretudo à posição do narrador dentro da reportagem. Bill Buford, jornalista norte-americano que passou grande parte da década de oitenta em Londres, narra de perto, muito perto - a ponto de, no limite, algumas vezes, colocar a própria vida em risco - uma série de acontecimentos violentos envolvendo os torcedores ingleses conhecidos como hooligans. É nesta posição de proximidade que Buford, no mesmo movimento, descreve o que vê e reflete sobre as próprias condições de construção de sua narrativa - a surra que leva de meia dúzia de policiais italianos na parte final do livro, ao mesmo tempo em que descreve seu esforço de lembrar os detalhes daquilo para narrar depois, é o momento mais exemplar - sem fazer disso uma afetação. Buford participa de um dos períodos mais intensos dos hooligans (de 1984 até 1990, na Copa da Itália) e por isso o livro se torna também um testemunho - embora não alcance maiores vôos reflexivos (e nem parece ter esta pretensão) - sobre a natureza da multidão e da violência. Não é nenhum absurdo pensar, depois da leitura, pelo modo como a violência é percebida, muitas vezes se confundindo com a própria felicidade, que os grandes confrontos em partidas de futebol devem substituir a experiência da guerra - até porque uma das noções que está em jogo é a noção nacionalista. Seja como for, em um gesto auto-consciente - e é isto que descola a narrativa do puro espetáculo, conferindo-lhe certa complexidade e paradoxo - a imagem de Buford enquanto narrador varia entre infiltrado, crítico, testemunha e até mesmo, em algum sentido, talvez, cúmplice.

Nenhum comentário: