12.4.10

O palavrão e a eficácia da forma

O palavrão é a maior prova da eficácia da forma. Pode-se expressar qualquer conteúdo do palavrão através de outra forma - até mesmo eufemismos de palavrões foram inventados, como "poxa", "putz" ou "PQP", assim mesmo soletrado - pois o que está sendo vetado é a enunciação do palavrão, vamos dizer, em sua esfera formal. Nas transmissões de jogos de futebol, pela televisão, acontece um fenômeno que considero interessante. Como se sabe, o palavrão é censurado, ali, em qualquer circunstância - nas entrevistas, por exemplo, os jogadores jamais são capazes de dizê-los (os mesmos jogadores que dão porrada na mulher, aliás) - mas no meio do jogo, através de uma leitura labial grosseira, é possível perceber que os palavrões são ditos inúmeras vezes e por todos os ângulos; é possível, aliás, quase escutá-los. Isto deve revelar, afinal, uma noção muito falsa e rudimentar do que venha a ser a linguagem, a saber: só é linguagem aquilo que possui articulação sonora. Se até mesmo o silêncio constitui signo, como uma palavra sem som não constituiria? Ou é possível ainda pensar diferente e imaginar que o que está sendo censurado, enfim, é a forma do palavrão apenas na medida em que se articula com sua expressão através do som. Se isso é verdade, é cabível sugerir que a força transgressiva do palavrão aparece somente quando chega aos nossos ouvidos. Mas e se o palavrão estivesse escrito na camiseta dos jogadores? Seja como for, a relação do homem com a linguagem é uma coisa cheia de mistérios.

5 comentários:

Anônimo disse...

puta que o pariu! esse post é do caralho!

gilvas disse...

sempre me intrigou a sonoridade do palavrão. inicialmente, foquei nos "U" de palavras como a que designa o traseiro humano e a que designa um elemento da prole de uma moça que trabalhasse em uma casa de tolerância, mas logo vi que o palavrão tem bases mais sólidas e complexas do que eu imaginava. é realmente um campo fértil para especulações e estudos.

Anônimo disse...

e a forma que as HQs, tipo turma da mônica, deram para os palavrões? signos visuais apenas, não se produz som possível pq não se sabe qual o palavrão o personagem pronuncia, mas ninguém duvida que seja um palavrão. nesse caso os ícones são indício do interdito... putz, essa minha especulação já tá semiótica demais. tudo isso só pra dizer que gosto de ver o cebolinha xingar a mônica. é tão divertido aquelas cobrinhas, caveirinhas, relâmpagos...

Anônimo disse...

#%&@*

Júlia Eleguida disse...

não me diz que o teu doutorado é sobre palavrões? a talvez linguagem