20.4.10

Sim, não, talvez



Os títulos das peças do Cena11 - às vezes longos, sobretudo os últimos, com uma sintaxe cheia de funções - sempre são chaves de leitura, conceitos. O nome: Sim - Ações Integradas de Consentimento para Ocupação e Resistência, último trabalho do grupo, já oferece um campo analítico vasto. Talvez a novidade esteja no significante ocupação. Pela primeira vez, salvo engano, o grupo realizou uma coreografia no meio da platéia - e só esta alteração já questiona, na raiz, através da idéia de ação, a própria possibilidade de uma coreografia, já que uma ação, a depender de uma força de resistência, deve prever algum improviso. Não é difícil perceber que o deslocamento da platéia para o palco - que poderia aparecer como maneirismo, a princípio - não é nada casual. Pelo contrário, as consequências são extremas. Tal deslocamento oferece novas regras para o jogo. Tenho a impressão, por exemplo, de que o Sim está mais próximo da performance do que da dança, linha de limite sempre tênue dentro da proposta do grupo. Se é visível, nos espetáculos anteriores, simplificando um pouco o argumento, que um dos principais motivos coreográficos do grupo consiste em criar dificuldades para as leis do corpo - o impedimento de passagem e o desequilíbrio, ambos muito recorrentes, são os motivos que me vem à memória no momento - também não é difícil imaginar que agora o bailarino encontra uma força de resistência absolutamente imprevisível: o outro. Inclusive, é este o motivo que faz o espetáculo se tornar (e a maioria das pessoas não concordou com o que vou dizer agora) um pouco engraçado. Ora, na medida em que os bailarinos querem passar de um lado a outro da sala (bem pequena, diga-se) e alguém da platéia impede, seja por acidente ou convicção, a situação deve acabar em riso, ainda que um pouco nervoso - talvez porque o público do Cena11 não esteja muito acostumado a rir. Talvez esta presença corpo a corpo com a platéia também tenha provocado o uso de recursos cenográficos (que nunca são apenas cenográficos) mais minimalistas e econômicos - por razões mais práticas, talvez, e menos visuais - e isso, seja como for, esvazia certo aspecto mais barroco que encontro nos espetáculos anteriores. A última mudança, enfim, está no final: a peça acaba sem que a platéia se dê conta de que quem está sendo vista agora é ela. Os bailarinos saem de cena (ou seria melhor dizer: desaparecem) e a cortina que fazia uma quarta parede cai, abrindo novamente a sala e deixando uma idéia de que, digamos, sim e não andam juntos.

2 comentários:

Anônimo disse...

"lavo louças e sou um chato"

Bárbara disse...

Gostei. Ainda mais porque me deu várias idéias de análise de um outro espetáculo que preciso entregar a crítica amanhã numa aula. Mas faltou falar da purpurina...