14.4.10

Un pasito para frente

No fim de 2007, fui passar uns dias em Buenos Aires. Eu e um amigo. Ambos abandonados pelas respectivas mulheres. Ficamos em um hostal em San Telmo, bairro boêmio e repleto de botecos meio vagabundos. Nosso espanhol se resumia a meia dúzia de expressões. Dentre muitas experiências tão ricas da viagem, lembro de uma: a pior.

No sábado, a maioria das pessoas que estava no hostal foi para uma festa descolada em Palermo, mas havia uma minoria com preguiça. Eu, meu amigo, um mineiro e mais uma italiana gordinha - que nos ensinava espanhol e parecia gostar de nossa companhia - resolvemos dar umas voltas aleatórias nas redondezas do bairro. A idéia era encontrar algo diferente.

Depois de muita caminhada, encontramos um bar com dois rapazes organizando um karaokê e dizendo umas graças no microfone pra testar o sistema de som. Ou pelo menos eu entendia assim. Havia uma moça na porta dando umas explicações. Olhamos na janela e a coisa estava um pouco triste. Ninguém quis entrar, naturalmente. Mas eu gostei daquilo. Não sei bem o motivo. Defendi a idéia de ficar um tempo. Podemos beber três cervejas só pra conhecer. Se não melhorar, vamos pra outro lugar. Mas nada. Bebemos duas só. Uma. Ninguém queria.

Eu pago as três.

Entramos.

Minha intuição estava certa e logo a coisa foi ficando animada. Como qualquer pessoa, eu bebo umas cervejas e começo a falar qualquer lingua. Meu amigo logo se empolgou com a possibilidade de conhecer o repertório de música popular argentina. Lembro que reconhecia apenas Rick Martin. Era uma verdadeira aula. Lembro também que, de repente, passamos a conversar muito com as pessoas. Havia basicamente argentinos nos bares. E então, de algum lugar, espalhou-se a idéia - falsa, é claro - de que três brasileiros estavam querendo cantar no karaokê.

Em poucos minutos, o bar inteiro - a esta altura já estava lotado - exigia a nossa performance. Não lembro com precisão de como as coisas se sucederam no tempo, mas lembro muito bem que não havia mais escolhas. Simplesmente não havia. A situação já estava no ponto em que a insistência da recusa passa a ser o que há de mais vergonhoso. Meu amigo não queria, de jeito nenhum, mas o mineiro animou-se. Coloquei a condição - com esperanças de que não aparecesse nenhuma música brasileira no repertório - de que só cantaria MPB. Era um argumento razoável, uma cartada de meste - pelo menos para o raciocínio de um bêbado - mas foi o grande erro. A italiana, como se fosse nossa empresária, começou a mediar uma negociação. Porque uma coisa era conversar - e a gente conversava com todo mundo - mas outra era se entender.

Bebi uns goles de cerveja enquanto os mocinhos procuravam alguma música brasileira. Não encontravam e enquanto isso eu me enchia de razão. Afinal, como qualquer pessoa sensata, por mais que goste de experiências diferentes - era isso que procurávamos, afinal - eu tenho verdadeiro horror de cantar em karaokê.

Passaram o alfabeto procurando música brasileira. A de amor, B de baixinho e C de coração. Foram encontrar uma música brasileira só na letra X. Está óbvio: X de Xuxa. Única canção disponível: Ilariê. E mais: em castelhano. Vai argumentar a esta altura de que tinha que ser em português? Havia uma grande expectativa no ar. Lembro de um garçom, por exemplo, secando um copo, mas indiferente àquilo, pois olhava apenas para nós.

Tinha um arremedo de palco. Subimos no palco. Eu estava disposto a fazer a coreografia. Quando começamos a cantar, foi inacreditável. Lembro vagamente, no auge da embriaguez, de uma fila de umas quinze pessoas fazendo a coreografia na nossa frente. Alguns chegaram a subir no palco. Tinha luz no nosso rosto e eu não conseguia assistir o bar inteiro, mas meu amigo disse depois - digo, o que estava sentado (pois se deve argumentar que o mineiro, com quem eu dividia o palco, também já era um grande amigo) - meu amigo disse que um pequeno grupo subiu nas mesas.

Quando acabou a interpretação, recebi os maiores aplausos da minha vida. Era lindo fazer parte daquilo. Depois até pagaram umas cervejas pra gente. Graças a Xuxa, por uma noite, eu fui o Rei de Buenos Aires.

4 comentários:

miimss disse...

Conheço a versão ébria e sóbria dessa história...

Anônimo disse...

o melhor texto dos últimos meses. bom mesmo.

Anônimo disse...

meu deus!

Anônimo disse...

o acontecimento porteño é realmente bom, mas o texto deixou a desejar. Nesse blog já li textos muito melhores sobre acontecimentos não tão surpreendentes.