13.5.10

Amores bêbados

Um bêbado na sarjeta, sozinho, no meio da rua, de madrugada, dançando e cantando em voz alta, pode até sugerir uma cena lamentável e triste, mas dois bêbados, mesmo brigando e discutindo - no meio da rua, em voz alta, de madrugada - geralmente é um dos mais belos testemunhos da existência do amor.

Na semana passada, quando eu comia uma pizza com alguns amigos do bairro, uma senhora de meia idade, levemente alterada, com cabelos curtos e pintados de loiro, calça jeans (era um pouco gordinha) - digo assim por falta de melhores definições - saiu apressada de uma rua, de repente, gritando qualquer coisa que, mais ou menos, pretendia definir a própria honra. Todos olharam, entre preocupados e curiosos, mais curiosos, enquanto a senhora atravessou a rua - passou bem na nossa frente, estava realmente irritada - sentou no boteco da outra esquina e pediu uma lata de Skol. E então - quando a senhora sentou no boteco e dobrou as pernas, agora calada, mesmo que ainda fosse possível perceber, com alguma atenção, que balançava os pés em um ritmo constante - tudo na rua voltou a ficar calmo e ordinário.

Mas não demorou muito para que um senhor, também de meia idade - tinha longos bigodes, a pele oleosa, era magro e também parecia alterado, embora não falasse alto (antes, resmungava coisas incompreensíveis entre os dentes) mas caminhava com ênfase e determinação, em direção ao boteco - não demorou para que este senhor aparecesse de repente, do mesmo lugar, que não sabíamos muito bem qual era, afinal, para recuperar a mesma tensão de minutos atrás. Todos os covardes caminham com esta determinação, comentou uma amiga. O aparecimento daquele senhor, no entanto, um pouco diferente, além de ser coberto de sentido - era possível perceber, só agora, a coerência de uma narrativa - também concedia sentido ao aparecimento até então intempestivo e louco da senhora.

Se o aparecimento do senhor tornava a cena mais verossímil, também tirava parte de seu mistério, mas lhe dava drama. O tempo anterior ao reencontro foi dominado pela expectativa, a nossa expectativa, de que algo acontecesse. Será que ele vai bater nela?, perguntou outra amiga. A verdade é que pouco se sabia da expectativa dos dois. A senhora se levantou (um salto!) e ambos discutiram - talvez tenham se empurrado na calçada - algo que ninguém conseguia muito bem entender. Pensei que o amor só pode ser dito através de uma língua desconhecida. Pensei também se alguém tinha o direito de intervir. A cena foi se apagando nela mesma até que voltamos a comer nossa pizza comum e ordinária.

No outro dia, uma quarta-feira, quando desci para tomar café da manhã, ambos estavam bebendo cerveja, às 11h da manhã, leves como dois passarinhos. A cena do dia anterior, estava claro, era apenas uma cena de amor.

Um comentário:

Anônimo disse...

tá certo: "o amor só pode ser dito através de uma língua estranha."