28.5.10

As profissões do meu vô

Meu vô era sanfoneiro de gafieira; ou seja, de zona, puteiro, estas coisas. Na banda do meu vô, havia também um cego e um anão; o anão, curiosamente, era o bateirista, enquanto o cego, tecladista, veja só, era o líder da banda. É bem provável que aquele era o único lugar em que meu vô conseguia ser coadjuvante, como queria. No fim do show, de volta pra casa, segundo conta o meu pai - no dia em que ele foi levado pra conhecer a vida - meu vô parava em todos os bares, sempre caminhando, pra tomar uma dose de cachaça, com a sanfona nas costas e o filho, que ainda não era meu pai, de arrasto. Sanfoneiro de gafieira não era exatamente a profissão de meu vô, mas talvez tenha sido seu passatempo mais duradouro. Seja como for, ainda hoje desconfio que meu vô alguma vez tenha recebido o pagamento em dinheiro.

Na verdade, meu avô tinha muitas profissões. A rigor, era vigia noturno de um clube. Talvez fosse sua única profissão formal, de fato. Mas ele também criou galinhas - e sobretudo treinou (pra brigas) - durante muito tempo. Era empresário, portanto. E médico também, já que fazia pequenas operações nas galinhas. Lembro, sem querer, de uma galinha toda aberta sobre a mesa; mas depois ele costurava direitinho e ficava tudo legal com as bichinhas. Aliás, teve uma vez que eu e minhas primas resolvemos roubar a máquina fotográfica e esvaziar um filme de 36 poses fazendo retratos de todas as galinhas do vô. Ninguém teria descoberto caso uma das minhas primas não tivesse o pé tão grande a ponto de aparecer em meia dúzia de retratos.

Meu vô também fazia negócios. O pai diz que ele era bom de negócios - e pergunta: por que diabos você está fazendo tanta pergunta sobre isso!? - mas meu tio diz que discorda, embora assuma que o vô sabia ser enrolador. O argumento pra dar valor às suas coisas era sempre o mesmo: pode ter igual, mas melhor não tem. Os negócios do vô eram tão democráticos que ficam até engraçados: trocava desde relógios por passarinhos até égua por corrente de ouro. Um dia ele chegou com uma égua em casa e semanas depois teve que conseguir uma carroça pra justificar a nova aquisição. Quando ele faleceu, lembra a minha vó com tristeza, o velório foi todo pago com a venda dos passarinhos.

4 comentários:

Anônimo disse...

o final é especialmente bonito.

jean mafra em minúsculas disse...

me diga uma coisa, vitor, teu vô teve essa banda por aqui? ele vivia na grande florianópolis? o nome do cego era ascindino? eu conheci um vilhinho, cego, que foi músico a vida inteira e tocava teclado, gaita, batera... ele morreu na segunda metade dos anos 90.

Victor da Rosa disse...

ele mesmo. ascindino. grande amigo do meu vô.

jean mafra em minúsculas disse...

adorei a tua seleção, seu victor, mas, como uso explorer e sou preguiçoso e de pouco domínio das ferramentas do mundo digital, tive que deixar o cometário aqui... parabéns!