10.5.10

A psicologia de um Eleitor Comum



Das vezes que voltei de Belorizonte para Florianópolis, ao invés de pegar um avião em Confins - onde fica o aeroporto de BH - preferi viajar de ônibus até São Paulo, passar uns dias por lá e pegar outro ônibus até a ilha. Na minha cabeça, eu evitava os transtornos do avião, economizava um pouco, não pagava excesso de bagagem, refletia sobre a vida, revia uns amigos queridos e ainda comia umas pizzas legais. Além disso, sempre converso um pouco, quando tenho sorte, com meu companheiro de viagem. Ontem tive sorte e sentei do lado de um eleitor de José Serra - embora sua poltrona, curiosamente, fosse a 13. Como há poucos eleitores de Serra ao meu redor, pareceu uma boa oportunidade - afinal eu entrei no ônibus às 20h e até chegar o meu sono iria um tempo - pra entender de perto, perto mesmo, a psicologia de um Eleitor Comum.

Percebi que o sujeito era um eleitor do Serra - embora sem certeza ainda - já quando entrei no ônibus. Ele lia as primeiras páginas do Estadão - alguém leu o Estadão de ontem? - e tinha pequenos regozijos com as afirmações de FHC sobre o PT. Pedi licença mesmo assim, sentei a seu lado e acompanhei discretamente sua leitura. O Eleitor Comum - depois descobri que era cearense, nascido em 1949 e com ensino superior completo, mas não perguntei seu nome - leu apenas o editorial e as páginas de política; nem quis saber das páginas de esporte, por exemplo. Então o Eleitor Comum acabou a leitura, dobrou o jornal, encaixou na poltrona, olhou pra mim, eu desviei o olhar pra janela - o trânsito na Marginal do Tietê estava terrível - ele também olhou pra janela e comentou algo assim: Hoje todo mundo resolveu sair de casa.

Tive certeza que era um eleitor de Serra. Mesmo assim, deixei passar um tempo, deixei a conversa sobre o trânsito morrer, fui logo perguntando: o Sr. já decidiu seu voto?, e a resposta veio de bate-pronto, com uma convicção até certo ponto espantosa, como se já esperasse minha pergunta: qualquer um que seja contra o PT. Completei: no Serra, no caso, pois o Ciro saiu da disputa. Ele confirmou: Sim, no Serra; o Ciro é outro vagabundo; foi pago pra sair da disputa. Depois a entrevista ficou fácil: apenas deixei o Eleitor Comum à vontade, cortando seu discurso com perguntas pontuais. Esta é a grande vantagem, aliás, de conversar nestas viagens longas, de ônibus: a pessoa diz tudo que você quiser.

Disse que o PT havia transformado o Brasil em uma corja de mendigos. Perguntei se não tinha simpatia por Lula; disse que tinha ódio. Disse que o único político que prestou no Brasil foi Brizola; aliviei um pouco. Pensei: ufa, nada mal, deve ser um tipo mais pessimista. Não. Disse que gostava de Brizola porque não deixava vagabundo se criar. Resolvi perguntar o que o Eleitor Comum achava da ditadura militar. Longo discurso saudoso. Eu, naturalmente, não discordava de nada. Neste momento eu percebi que um pessoal do banco de trás olhou em nossa direção. Disse que o Brasil havia se tornado um país de vagabundos, bandidos e viados. Que nosso governo não deixa matar os bandidos. Em Fortaleza não é permitido mostrar a cara de um estuprador na TV. Disse que o governador em Fortaleza é viado - usou uma expressão até engraçada, embora ele mesmo não achasse graça: quando apaga a luz, vira galinha - e a prefeita é sapatona. Disse que, inclusive, o Chefe da Casa Militar de Fortaleza é viado. Desmunheca quando bebe. Aproveitou e disse que o Fagner era viado também.

Em nenhum momento passou pela cabeça do Eleitor Comum me perguntar em quem eu votaria. O que achei ótimo, naturalmente, pois tínhamos 12h de viagem pela frente. Talvez considerasse que eu era viado também.

6 comentários:

Anônimo disse...

essa foi ótima! fazia tempo que não dava risadas lendo um texto teu. adorei.
mas tem uma coisa, sou um eleitor comum e não voto no serra, não acho que todo mundo seja viado e nem que ser viado é algum tipo de problema. o que define um eleitor comum?

Victor da Rosa disse...

ah é que há vários tipos!

jean mafra em minúsculas disse...

ahahahaahahahahahah - victor, eu adoraria assistir isso. da próxima vez: grave!

jean mafra em minúsculas disse...

ah, victor, caso interesse saber: há uma foto sua no meu blog.

gilvas disse...

fico imaginando como se consegue tamanha uniformidade de pensamento único, e não consigo creditar isso apenas à ação da decrépita tfpista veja. será que existe um subconsciente reacionário? ouço este tipo de papo direto, principalmente por trabalhar com engenheiros...

Christiano Scheiner disse...

ahahauahaua, vc é incrívelll!! ahahahah, que delícia de crônica, que delíciaaaaaaa. tu és bom demais, babe. saudades, vens a Ilha?! quando vens? vens de busão? eu vou reler mil vezes isso aqui. ;)
thank you for me deixar mais alegre!