30.7.10

Conversa fiada

A polêmica entre os antológicos sambistas Wilson Batista e Noel Rosa, aqui, é um dos momentos mais divertidos da história da mpb - pra deixar Lobão e Caetano Veloso no chinelo. A rigor, a polêmica marca uma espécie de racha que, de certo modo, atravessa todo o século de nossa música: por um lado, um compositor negro, que fala dos malandros que andam com a navalha no bolso e do orgulho de ser vadio; por outro, um compositor de classe média, morador da Vila Isabel e estudante de medicina, que não economiza referências ao bacharelado em suas composições. Curiosamente, a discussão entre Wilson e Noel - que tem a qualidade de ser realizada toda através de sambas - traz sobretudo a defesa de tais valores, algumas vezes nas entrelinhas ou em outras de modo mesmo explícito.



Tudo começa quando Noel resolve chamar Wilson Batista de "rapaz folgado", respondendo o samba Lenço no Pescoço com os seguintes versos: "deixe de arrastar o teu tamanco / pois tamanco nunca foi sandália / tira do pescoço o lenço branco / compra sapato e gravata / joga fora esta navalha / que te atrapalha". Wilson responde a Noel com um samba mais fraco, mas fica com a provocação engasgada exatamente no pescoço. Então Noel compõe Feitiço da Vila, algum tempo depois, e Wilson resolve fazer o mesmo que o menino da vila havia feito antes: responder o samba verso por verso. É quando nasce o genial Convera Fiada, que começa com os seguintes versos: "é conversa fiada dizer / que na Vila tem feitiço / eu fui ver para crer / e não vi nada disso", e depois não deixa uma imagem da Vila de Noel de pé.

Dizem os cronistas que a polêmica invadiu todas as rádios da época. Para os dois sambistas, portanto, desistir dela seria uma derrota que valeria, além de tudo, mil gozações. Só pra não ficar por baixo, Noel Rosa compõe uma resposta mais sutil, Palpite Infeliz, que muitos conhecem, mas poucos sabem de sua origem. E então Wilson Batista resolve apelar e lança o divertidíssimo Frankestein da Vila, que muitos julgam politicamente incorreto, tirando onda com a feiúra de Noel: "boa impressão nunca se tem / quando se encontra um certo alguém / que até parece o Frankestein". Há quem afirme que Wilson Batista se arrependeu do samba, mas eu não acredito. Da parte de Noel, nunca mais houve respostas, pelo menos explícitas.

5 comentários:

Felipe da Matta disse...

Essa rixa entre Noel e Wilson é ótima! Conhecer tramas como essa permitem análises não só no campo musical, como também dos valores e dinâmicas sociais da época.

Anônimo disse...

o video mostra q a polêmica ainda continua com "joão ninguém" de noel. não?

Victor da Rosa disse...

verdade, felipe. uma coisa interessante talvez é que se não houvesse o contexto das rádios, por exemplo, provavelmente a polêmica não andaria. o wilson batista diz em uma entrevista, meio melindrado, que depois que o samba do noel começou a tocar, ele recebia "pilhéria" de todo lado.

não sei, anônimo. acho difícil que o joão ninguém seja algo tão direto para o wilson batista como são os outros sambas, em que é possível reconhecer a resposta verso por verso. pode até ser uma indireta, aí já não sei dizer, mas na minha opinião são coisas diferentes.

jean mafra em minúsculas disse...

grande post. adoro o wilson batista, e embora não seja tão fã das canções feitas por ele para esta polêmica, acredito que o evento foi fundamental para que noel fizesse alguns grandes sambas.

Victor da Rosa disse...

gosto muito de 'mulato calado'. acho que é um samba que antecipa o discurso da violência do rap.