5.7.10

Deus é brasileiro

O drama, em resumo, era o seguinte: eu tinha apenas mais uma semana para entregar, na secretaria do curso, a cópia final da dissertação, que defendi há quase três meses, e alguns documentos necessários - entre eles, a cópia autenticada do diploma de graduação. Caso contrário, eu corria o risco de perder meu título de mestre, que só Deus sabe o quanto me custou! E a tragédia, muito pior do que o drama, era que eu não encontrava a porra do diploma da graduação. A verdade é que não havia nenhuma possibilidade de perdê-lo, mas aos poucos fui chegando à conclusão de que também não havia mais possibilidade de encontrá-lo.

A solução institucional mais simples e natural era pedir uma segunda via. Só o DAC poderia me salvar. Chegando lá, descobri que a segunda via demora um mês pra ficar pronta e custa cem reais. Com muita sorte, duas semanas. Se eu telefonar todo dia e o reitor não viajar, uma. Recebi a informação com aquele soprinho de desconsolo lançado no ar, digno de quem procura a todo custo manter o controle, mas começa a perceber que as idéias estão acabando. Liguei pra minha mãe já prevendo que ela faria a pergunta que sempre faz: por que você não resolveu isso antes!?, como se eu fosse o anjo do Walter Benjamin, mas esperançoso de que o preço da segunda via lhe renovasse o ânimo; e ela perguntou: por que você não resolveu isso antes?!

Desespero.

Vontade de chorar.

Minha última opção foi conversar com a Elba, secretária do curso que sempre resolve os problemas com soluções pragmáticas e concretas. Você procurou bem o diploma?, me pergunta. Por tudo, Elba!, respondo com sincera expressão de tristeza. Não faça esta cara, você já é um mocinho, um mestre!, ela me consolou. Não sou!, respondi, com bastante ênfase, tentando lembrá-la de que a questão era justamente esta. Verdade, ainda não é, concordou. E então o silêncio da derrota se instaurou. Era o fim. Já estava indo embora quando a Elba me perguntou: E se você pedir pro São Longuinho!?

Resmungando, disse que estávamos em um ambiente universitário, racional. Não tinha estudado dez anos pra fazer prece pro São Longuinho. E que achava mais patético ainda dar aqueles malditos três pulinhos. Desconsolado e irônico - a ironia era a única coisa que me restava - liguei pra minha mãe dizendo pra ela acender uma vela pro santo. Não sei se acendeu, mas me respondeu dez minutos depois dizendo que havia encontrado o diploma. Estava na estante onde sempre ficava, mas escondido atrás dos CDs. Hoje levei a cópia pra Elba e ela deu pulinhos de alegria. Seja como for, ainda não sei se foi mesmo o São Longuinho que encontrou ou a minha mãe pensando nos cem reais que eu teria que pagar. Mas posso dizer que meu diploma de mestre, graças a Deus, já está garantido.

4 comentários:

Í.ta** disse...

palavras da salvação:
glória a vós, senhor!

Victor da Rosa disse...

deu algum pau no servidor e não consegui aprovar os comentários feitos de manhã. deve ser por causa do número excessivo de visitas!

Débora Poulain disse...

Que saga! Escrever com final feliz sem ser over é pra poucos! Já disse que gosto do teu texto, não? Parabéns, mestre.

Í.ta** disse...

palavras da salvação:
graças a deus!