15.7.10

Uma vovó

Enquanto eu procurava um lugar pra sentar, me equilibrando pelo corredor do ônibus em movimento, concentrado naquilo, ainda de manhã, uma moça - perto de seus trinta e cinco anos, suponho - de maneira meio acintosa, desproporcional até naquela situação, me fulminou com os olhos. Ela não era nenhuma musa do terminal, de fato, mas também não servia pra feia. Tinha os cabelos desgrenhados e a expressão um pouco louca, talvez por excesso de determinação. Passei de seu lado e ela ainda fez, como se não bastasse, um pequeno girinho com o pescoço. Vestia-se com algo inadequado para o inverno. Seja como for, por conveniência, curiosidade e precaução, sentei a dois bancos de distância. Não demorou para aparecer um rapaz conhecido da moça; alguém que, pelos cumprimentos, ela não via há algum tempo. Prestei atenção na conversa. E a moça foi logo dizendo o que nos interessa: Ah, serei vovó!

A frase deu um susto no meu pensamento, que por sua vez dava voltas! Como assim, vovó? As vovós não são aquelas senhorinhas que fazem doces e tem os cabelos ralinhos? Comecei a fazer as contas. Afinal, segundo a matemática, esta ciência tão exata quanto falsa, não era um absurdo que a moça fosse uma vovó. Se ela teve uma filha com dezesseis e sua filha engravidou com dezoito, por exemplo, fecha trinta e quatro, uma idade razoável para aquela moça que, se não era distinta, já era uma vovó. Acompanhei a conversa. A moça tinha três filhos, aliás - com dois homens diferentes, parece - e um namorado (argentino) de vinte e oito anos. Ela se preparava para passar uns dias em Buenos Aires, onde visitaria o affair. Meu namorado está todo contente com a netinha!, a moça diz para o amigo, que procurava agir com naturalidade. Não consegui saber sua idade, mas não precisava. Pelo caminho mais inusitado, o fato explicava as evidências. Era uma vovó e isso bastava.

Um comentário:

Í.ta** disse...

tu e os ônibus...

tô dizendo!

=D

abração!