22.8.10

2666 - O deserto do medo

2666, de Roberto Bolaño - escritor que, nos últimos anos, tornou-se muito cultuado no país - costuma ser lido sobretudo como um romance sobre a natureza da violência. "Ninguém presta atenção nestes assassinatos, mas neles se esconde o segredo do mundo", diz o narrador. Dividido em cinco partes - cada parte, com 150 a 200 páginas, consegue manter certa independência em relação às outras - o conflito se sustenta principalmente sobre uma série de assassinatos de mulheres realizada no deserto de Santa Teresa, no México. De diferentes maneiras, as cinco partes do livro se relacionam com o fato. Uma das partes, A parte dos crimes, a quarta parte, ao modo de uma narrativa forense, descreve com precisão a natureza dos crimes, sem desvendá-los. Mas a violência aparece também com a guerra - um dos personagens defende o exército alemão - e com a surra que dois professores universitários dão em um taxista em Londres. A falta de sentido diante do horror - "um oássis de horror em meio a um deserto de tédio", diz a epígrafe, de Baudelaire - será mantida.

E talvez seja esta falta de sentido que produza aquilo que, a meu ver, assim como a violência - ou melhor, gerado pela violência - sustenta o romance de Bolaño: o medo. "Não consigo me sentir totalmente seguro", diz um personagem - enquanto outro carrega "um olhar de medo absoluto". Referências ao medo aparecem sugeridas pelas cinco partes do livro e, como a névoa que dá peso a uma paisagem - mas não necessariamente a define - atravessam a vida de grande parte dos personagens. Não se pode dizer que o medo é gerado por uma invisibilidade, como uma espécie de paranóia; afinal, a violência é objetivada, tornada quase material, como se disse, na parte dos crimes. No entanto, existe a promessa de que "o assassino sempre volta ao local do crime". Isso lembra o desejo de Bolaño de ser detetive, pronunciado em uma de suas últimas entrevistas, pois o detetive é o sujeito que volta ao local do crime sozinho e não se assusta com fantasmas. Seria a literatura o crime? Ou o escritor, afinal, um detetive?

O número que dá título ao livro, 2666, é lido como uma data. Ignacio Echevarría, que assina o prólogo da primeira edição, lembra inclusive uma menção feita ao número em algum romance anterior de Bolaño. É também o recurso que motiva a metáfora de Alan Pauls em um de seus comentários sobre o livro: o romance que vem do futuro. Por outro lado, por sugerir muitos sentidos, não creio que a chave do título - uma chave cega - deva se cristalizar nisso. Durante a leitura, há a sugestão de que 2666 pode ser o número de um quarto de hotel - o gênero detetivesco é repleto destas menções - ou mesmo o número de mulheres mortas e inquéritos não resolvidos no deserto. A questão não é exatamente o que significa o título; mas o fato de que, aberto, pode significar muitas coisas. De qualquer modo, o título tem a dupla procedência de objetivar um fato e, parece, nos afastar dele. É a mesma armadilha da narrativa.



Muitos críticos dizem que a ironia é uma das principais assinaturas de Bolaño. A ironia, em sua literatura, parece adquirir uma marca muito própria: ela surge das entranhas dos fatos. Ela não é, como nos filmes de Tarantino, uma construção explicitamente artificial: coloca-se um gangster comendo McDonalds antes de chegar ao local do crime; ou uma quadrilha pra discutir uma canção de Madona. Na literatura de Bolaño, a ironia é quase casual - aparece com um delegado que lê a carta de uma mulher que se suicida por medo e pensa - mas não diz - que a carta é de mal gosto; ou com um médico legista que sugere que a mulher queimada se trata de uma puta porque é possível, ainda, reconhecer o silicone. Aliás, uma das qualidades do livro de Bolaño é que, seja como for, não parece literatura.

Um dos motivos da narrativa de Bolaño é o mal-entendido. Sua prosa sugere uma falsa transparência. É o discurso do jornalismo policial, ao mesmo tempo próximo e distante - horrorizado, certamente, mas neutro, sóbrio, entre a evidência do realismo e a iminência do pesadelo - que aparece apropriado. O título de outro romance de Bolaño, Detetives Selvagens, já trazia esta ambivalência: frio e quente. Trata-se, seja como for, de uma narrativa que, sem qualquer psicologismo, anda apenas pela superfície - sendo que, no romance tradicional, a psicologia nos garante, de certo modo, uma verdade. Não se trata, por outro lado, de um romance - como Ulisses, de Joyce, para citar o exemplo mais óbvio - que leva a linguagem ao limite da incomunicabilidade. Em 2666, pelo contrário, Bolaño quer construir a imagem de que estamos - narrador e leitor - nos entendendo. Aos poucos o leitor percebe que tal imagem é uma ilusão. Bolaño atua com precisão nestas duas qualidades: produzir a ilusão do sentido e desfazê-la. Como um crime, afinal, o culpado está sempre perto - sua marca está ali, presente - e longe.

+ Resenha de E. Sterzi | Documentário sobre Bolaño | Dois comentários sobre 2666

3 comentários:

paranax disse...

Muito legal o texto e os links!

Í.ta** disse...

jogão no maraca ontem!

Kovacs disse...

Ótima resenha e parabéns pelos textos do blog que só conheci hoje vindo do "Biscoito Fino".